localização atual: Novela Mágica Moderno A Menina Que Me Chamou de Mãe Capítulo 2

《A Menina Que Me Chamou de Mãe》Capítulo 2

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O silêncio dentro do salão privativo parecia mais pesado do que as portas trancadas.

Clara Valente sentia a mão pequena de Lina apertando seus dedos.

A menina não a soltava.

Nem por um segundo.

Adriano Vasconcelos continuava parado diante dela, com o rosto fechado e os olhos fixos demais.

"Qual hospital disse que sua bebê morreu?"

A pergunta atravessou Clara como uma lâmina.

Ela tentou responder.

Mas a voz não saiu de imediato.

A lembrança daquele lugar ainda tinha cheiro.

Álcool hospitalar.

Lençol branco.

Corredor frio.

Choro preso na garganta.

E portas fechadas na cara dela.

Clara respirou fundo.

"Hospital Santa Catarina."

O nome caiu no salão como uma sentença.

A reação foi imediata.

Lúcia, a babá, perdeu toda a cor do rosto.

Seu corpo recuou sozinho, como se alguém tivesse empurrado seu peito.

Adriano viu.

Clara também.

Lina se agarrou ainda mais à saia do uniforme de Clara.

O maître, que até minutos antes só se preocupava com vinho no mármore, agora parecia incapaz de falar.

Os convidados se entreolhavam, assustados.

Ninguém queria estar ali.

Mas ninguém tinha coragem de pedir para sair.

Adriano virou lentamente o rosto para Lúcia.

"Você conhece esse hospital?"

Lúcia balançou a cabeça rápido demais.

"Não, senhor."

A mentira foi tão fraca que pareceu insulto.

Adriano deu um passo na direção dela.

A babá apertou as mãos contra o próprio avental.

"Eu perguntei se você conhece esse hospital."

"Não conheço."

"Lúcia."

A voz dele saiu baixa.

Mas o nome dela soou como ameaça.

"Você trabalha na minha casa há seis anos."

Lúcia começou a tremer.

"Cuida da Lina desde que ela chegou."

"Sim, senhor."

"Então escolha muito bem a próxima resposta."

Ela abriu a boca.

Fechou.

Os olhos dela correram para a porta trancada.

Depois para Clara.

Depois para Lina.

Como se procurasse uma saída onde não existia nenhuma.

Clara sentiu o estômago virar.

Aquela mulher sabia.

De alguma forma, sabia.

"Você sabia de mim?"

A pergunta escapou da boca de Clara antes que pudesse segurar.

Lúcia não respondeu.

Clara deu um passo à frente.

"Você sabia que eu existia?"

Lina olhou de uma para outra, confusa.

"Mamãe?"

Clara imediatamente abaixou a voz.

"Está tudo bem, meu amor."

Ao ouvir aquelas palavras, Clara sentiu o próprio coração rasgar.

Meu amor.

Ela nunca tinha tido permissão de dizer isso à filha.

Não de verdade.

Não depois daquela noite no hospital.

Adriano olhou para Lina.

Depois para Clara.

E algo em sua expressão endureceu.

"Lúcia, responda."

A babá levou uma mão à boca.

Os olhos encheram de lágrimas.

"Eu não sabia que era ela."

Clara sentiu o chão fugir.

"O quê?"

Lúcia começou a chorar.

"Eu juro por Deus, eu não sabia que era ela."

Um murmúrio correu pela mesa.

Uma mulher levou a mão ao peito.

Um empresário sussurrou algo para o homem ao lado.

Adriano levantou apenas uma mão.

Todos se calaram.

"Explique."

Lúcia soluçou.

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"Quando a menina chegou, disseram que a adoção era legal. Disseram que a mãe biológica tinha abandonado. Disseram que havia laudo, autorização, tudo."

Clara ficou imóvel.

Abandonado.

A palavra a atingiu com mais violência do que qualquer tapa.

"Eu nunca abandonei minha filha."

A voz de Clara saiu rouca.

Ferida.

"Eu nunca abandonei."

Lúcia chorava sem conseguir encará-la.

"Foi o que me disseram."

"Quem disse?"

Lúcia respirou com dificuldade.

"O instituto."

Adriano ficou completamente parado.

"Que instituto?"

A babá fechou os olhos.

"Instituto Éden."

O nome provocou outra onda de silêncio.

Dessa vez diferente.

Mais sujo.

Mais perigoso.

Um dos convidados, um homem grisalho de terno azul-marinho, desviou o olhar imediatamente.

Adriano percebeu.

Mas não falou com ele ainda.

Seus olhos continuavam em Lúcia.

"Que tipo de instituto?"

"Era uma consultoria privada de adoção."

"Privada?"

A palavra saiu da boca de Clara com nojo.

Lúcia assentiu, chorando.

"Eles faziam intermediação para famílias de alto padrão. Tudo com advogado, psicólogo, laudo, audiência sigilosa..."

Clara soltou uma risada curta.

Amarga.

"Famílias de alto padrão."

Ela olhou para os lustres.

Para as taças.

Para as joias no pescoço das mulheres.

Para os relógios nos pulsos dos homens.

"Então foi assim?"

Sua voz começou a subir.

"Eu gritava por notícias da minha filha enquanto alguém assinava papel em sala com ar-condicionado?"

Ninguém respondeu.

Clara apertou a mão de Lina contra o peito.

"Eu voltei naquele hospital toda semana."

As lágrimas escorriam sem controle.

"Toda semana."

A voz dela quebrou.

"Eu pedia só para ver o prontuário. Só para saber onde enterraram minha menina. Só para entender por que eu não pude me despedir."

Lúcia chorava em silêncio.

Adriano não desviava os olhos dela.

Clara continuou.

"Na terceira vez, mandaram um segurança me tirar."

Ela engoliu o soluço.

"Na quarta, disseram que iam chamar a polícia se eu voltasse."

Uma convidada cobriu a boca.

Clara olhou para Adriano.

"Na quinta, eu fui mesmo assim."

Sua voz tremia.

"Porque mãe não aceita perder um filho sem uma última resposta."

Lina tocou o rosto dela com cuidado.

Clara se despedaçou por dentro.

"E eles disseram que eu estava perturbada."

Adriano fechou os punhos.

"Quem disse isso?"

"Uma médica."

"Nome."

Clara tentou lembrar.

A dor confundia tudo.

"Não sei. Doutora Helena alguma coisa. Ela usava jaleco com o nome do hospital. Falava comigo como se eu fosse lixo."

Adriano olhou para um segurança.

"Anote."

O homem obedeceu na hora.

Clara balançou a cabeça, tomada por uma raiva antiga.

"Eu era pobre. Estava sozinha. Tinha acabado de parir. Eles sabiam que ninguém ia acreditar em mim."

Ela apontou para Lina.

"Mas minha filha estava viva."

A palavra filha fez o salão inteiro estremecer.

Lina encostou a cabeça no corpo de Clara.

Como se aquele lugar sempre tivesse sido dela.

Adriano respirou fundo.

Pela primeira vez, parecia lutar contra algo dentro de si.

"Quando Lina chegou à minha casa, ela tinha três meses."

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Clara olhou para ele.

"Três meses?"

"Foi o que me disseram."

"Quem entregou ela?"

Adriano demorou um segundo.

"Minha esposa cuidou do processo."

"Esposa?"

"Viviane Vasconcelos."

O nome passou pela sala como veneno.

Algumas pessoas baixaram os olhos.

Lúcia pareceu ainda mais apavorada.

Clara percebeu.

"Ela sabia?"

Adriano olhou para Lúcia.

"Lúcia."

A babá soluçou.

"Eu não sei."

"Você sabe alguma coisa."

"Eu juro que não sabia que a mãe estava viva."

Clara se aproximou dela.

"Você trocou fralda da minha filha."

Lúcia chorou mais.

"Sim."

"Você deu banho nela."

"Sim."

"Você viu ela crescer."

"Sim."

"E nunca perguntou de onde ela veio?"

A babá abaixou a cabeça.

"Eu era empregada."

Clara riu de novo.

Dessa vez com dor.

"Eu também."

O golpe foi direto.

Lúcia levantou os olhos, envergonhada.

"Eu tinha medo de perder o emprego."

Clara olhou para ela como se a frase fosse absurda.

"Eu perdi uma filha."

Ninguém ousou respirar alto.

Adriano se virou para o advogado que estava sentado próximo à ponta da mesa.

"Daniel."

O homem, que até então tentava parecer invisível, levantou-se.

Daniel Medeiros era elegante, discreto e pálido.

Muito pálido.

"Sim, Adriano."

"Você tem acesso aos arquivos da adoção da Lina?"

Daniel ajeitou os óculos.

"Tenho acesso a parte deles."

"Parte?"

"Alguns documentos ficaram sob sigilo judicial."

"Quebre o sigilo."

"Isso não é simples."

Adriano caminhou até ele.

"Minha filha pode ter sido roubada de uma mulher dentro de um hospital. Nada nesta sala é simples."

Daniel engoliu seco.

"Eu posso solicitar uma revisão emergencial."

"Não solicite."

Adriano se inclinou ligeiramente.

"Faça."

Daniel abriu o tablet com mãos trêmulas.

O som dos dedos dele na tela parecia alto demais.

Clara observava tudo sem entender como o mundo podia continuar funcionando.

Como podia existir tablet.

Advogado.

Senha.

Documento.

Enquanto a vida dela tinha sido destruída com uma mentira.

Lina puxou sua mão.

"Você vai embora?"

Clara se abaixou imediatamente.

"Não."

A menina franziu o rostinho.

"Promete?"

Clara sentiu a garganta fechar.

Ela tinha medo de prometer.

Porque o mundo já tinha arrancado essa criança dela uma vez.

Mas olhou nos olhos de Lina.

E disse:

"Prometo que eu vou lutar por você."

A menina pareceu satisfeita.

Encostou a testa na dela.

Adriano viu.

E pela primeira vez, Clara percebeu sofrimento no rosto dele.

Não arrogância.

Não frieza.

Sofrimento.

Como se ele também estivesse entendendo que o amor dele por Lina não apagava o crime que talvez tivesse permitido.

Daniel parou de digitar.

Seu rosto ficou estranho.

Adriano percebeu imediatamente.

"O que foi?"

Daniel não respondeu.

"O que você encontrou?"

O advogado respirou fundo.

"Existe uma cópia digitalizada do termo de entrega."

Clara se levantou.

"Termo de entrega?"

Daniel olhou para ela com desconforto.

"Um documento afirmando que a mãe biológica abriu mão da criança."

Clara sentiu o sangue ferver.

"Isso é mentira."

Daniel continuou.

"O documento traz laudo psicológico, autorização hospitalar e assinatura da mãe."

Clara balançou a cabeça.

"Não."

Adriano estendeu a mão.

"Mostre."

Daniel hesitou.

"Adriano..."

"Mostre."

O advogado virou o tablet.

Adriano leu.

Seu rosto endureceu.

Clara viu seus olhos pararem em uma linha específica.

Então ele olhou para ela.

Devagar.

Com algo parecido com horror.

"Clara..."

Ela se aproximou, tremendo.

"O quê?"

Daniel virou a tela para ela.

Ali estava seu nome.

Clara Valente.

Escrito embaixo de um texto frio.

Como se ela tivesse entregado a própria filha.

Como se tivesse escolhido sair do hospital sem olhar para trás.

Como se não tivesse chorado até perder a voz.

E no final da página...

Havia uma assinatura.

Clara ficou completamente imóvel.

Por um segundo, o salão desapareceu.

Depois veio o grito.

"Essa assinatura não é minha!"

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