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《O Pai de Mentira da Menina Esquecida》Capítulo 3

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Dona Célia demorou alguns segundos para responder.

O sorriso falso continuava preso em seu rosto.

Mas os olhos haviam mudado.

Rafael Monteiro conhecia aquele tipo de olhar.

Era o olhar de quem estava calculando uma mentira.

"Isso?"

Ela puxou rapidamente a manga do vestido de Lívia para baixo.

"Criança vive batendo em tudo, seu Rafael."

"Escada."

"Porta."

"Brincadeira."

Lívia ficou imóvel.

Os dedos apertavam o certificado da formatura.

Ela não olhava para Rafael.

Não olhava para Dona Célia.

O silêncio dela dizia mais do que qualquer explicação.

Rafael respirou devagar.

"Eu perguntei quem fez."

Dona Célia endureceu.

"Com todo respeito, o senhor não tem autoridade sobre essa menina."

"Não tenho."

A voz de Rafael saiu baixa.

Fria.

"Mas sei reconhecer medo quando vejo."

Lívia levantou os olhos por um segundo.

Foi rápido.

Quase nada.

Mas bastou.

Havia pânico ali.

Um pânico quieto.

Treinado.

Daqueles que uma criança aprende a esconder para sobreviver.

Dona Célia percebeu a troca de olhares e apertou os lábios.

"Lívia, entra."

A menina obedeceu imediatamente.

Sem questionar.

Sem hesitar.

Como se qualquer atraso pudesse custar caro.

Rafael viu.

E naquele instante decidiu.

Não ia embora.

Não de verdade.

Na manhã seguinte, Rafael chegou ao escritório mais cedo do que todos.

A cobertura do Grupo Monteiro tinha vista para uma São Paulo poderosa.

Prédios de vidro.

Helicópteros.

Avenida congestionada.

Executivos correndo atrás de dinheiro.

Mas Rafael não conseguia pensar em contratos.

Não conseguia pensar em ações.

Não conseguia pensar na reunião perdida.

Só via o pulso de Lívia.

A marca arroxeada.

O olhar assustado.

E aquela frase simples.

"Eu não tenho mais ninguém."

Sua assistente, Renata, entrou na sala com uma pasta nas mãos.

"Bom dia, senhor."

"Bom dia."

"Remarquei a reunião de ontem para sexta."

"Ótimo."

Ela percebeu algo estranho.

Rafael não costumava responder sem olhar os documentos.

Na verdade, Rafael nunca parecia distraído.

Frio, sim.

Distante, sempre.

Distraído, nunca.

"Está tudo bem?"

Ele levantou o rosto.

"Renata, preciso que você levante informações sobre uma casa de acolhimento familiar."

Ela franziu a testa.

"Casa de acolhimento?"

"Não oficialmente abrigo."

"Uma mulher chamada Célia Nogueira."

"Cuida de crianças sob medida protetiva."

Renata anotou rapidamente.

"Posso perguntar o motivo?"

Rafael olhou pela janela.

"Uma menina de nove anos mora lá."

"Ela precisa de ajuda?"

Ele demorou um segundo.

"Eu ainda não sei."

A pausa foi pesada.

"Mas vou descobrir."

Dona Célia Nogueira era conhecida no bairro como uma mulher caridosa.

Na igreja, sentava nas primeiras fileiras.

Nas campanhas sociais, aparecia sorrindo nas fotos.

Quando o Conselho Tutelar visitava, a casa estava limpa.

As crianças penteadas.

A geladeira abastecida.

Os documentos organizados sobre a mesa.

Tudo parecia correto.

Tudo parecia humano.

Mas a verdade vivia depois que os visitantes iam embora.

Ali, o café da manhã das crianças muitas vezes era pão dormido.

O almoço vinha com arroz seco e restos do dia anterior.

As roupas boas ficavam guardadas para inspeções.

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Os brinquedos doados raramente eram entregues.

E as crianças aprendiam cedo que chorar só piorava as coisas.

Lívia sabia disso melhor do que ninguém.

Naquela casa, pedir era desobediência.

Sentir fome era ingratidão.

Ficar triste era drama.

E sonhar era pecado.

"Você tem sorte de ter teto."

Dona Célia dizia isso quase todos os dias.

Como se teto fosse amor.

Como se comida fria fosse cuidado.

Como se silêncio fosse educação.

Lívia nunca respondia.

Porque responder era perigoso.

Dois dias depois, Rafael foi à Escola Municipal Padre Anchieta.

Não avisou antes.

Chegou sozinho.

Sem motorista.

Sem seguranças.

A diretora Clara Azevedo o recebeu em sua pequena sala.

Era uma mulher de quase cinquenta anos, rosto cansado, olhos atentos.

Daquelas professoras que já tinham visto muito sofrimento infantil para se impressionar com riqueza.

"Senhor Monteiro."

"Obrigado por me receber."

"Confesso que fiquei surpresa com seu pedido."

Rafael sentou.

"Quero falar sobre Lívia Santos."

O rosto de Clara mudou imediatamente.

Não de surpresa.

De preocupação.

"O que aconteceu?"

"Foi isso que vim perguntar."

Clara respirou fundo.

Olhou para a porta.

Depois baixou a voz.

"Lívia é uma das melhores alunas que temos."

"Inteligente."

"Educada."

"Responsável demais para a idade."

Rafael franziu a testa.

"Responsável demais?"

"Ela nunca esquece material."

"Ajuda os colegas."

"Entrega tudo no prazo."

"Mas quase nunca pede ajuda."

Clara fez uma pausa.

"Isso não é maturidade."

"É defesa."

Rafael ficou em silêncio.

A diretora continuou.

"Às vezes ela chega com fome."

"Quando oferecemos lanche extra, ela diz que não precisa."

"Mas come escondido depois."

Os dedos de Rafael fecharam sobre o braço da cadeira.

"Por que ninguém denunciou?"

Clara sustentou o olhar dele.

"Porque a gente denuncia."

"E depois?"

"Depois o sistema visita a casa."

"Naquele dia, está tudo perfeito."

Ela suspirou.

"E a criança volta para o mesmo lugar."

A raiva dentro de Rafael cresceu.

"Ela tem medo?"

Clara respondeu sem hesitar.

"Tem."

A palavra caiu como sentença.

Naquela tarde, Rafael voltou a ver Lívia.

Com autorização da escola, esperou perto da saída.

Quando ela o viu, parou no meio do pátio.

Por um segundo, o rosto se iluminou.

Depois a luz sumiu.

Como se ela lembrasse que não podia demonstrar alegria demais.

"Oi."

"Oi, Lívia."

"Você veio por causa do meu braço?"

Rafael sentiu o peito apertar.

"Vim por sua causa."

Ela olhou para os lados.

"Eu estou bem."

"Você sempre diz isso?"

Ela mordeu o lábio.

"É melhor."

"Melhor para quem?"

Lívia não respondeu.

Então Rafael mudou o tom.

"Você gosta de livros?"

Ela pareceu surpresa.

"Gosto."

"Qual tipo?"

"Histórias com finais felizes."

"Por quê?"

Ela deu de ombros.

"Porque na vida real quase nunca tem."

A frase o atingiu em cheio.

Rafael respirou fundo.

"Então vamos comprar alguns."

Os olhos dela se arregalaram.

"Hoje?"

"Hoje."

"Mas Dona Célia..."

"Eu vou falar com ela."

O medo voltou.

Imediato.

"Não."

A resposta foi rápida demais.

Rafael percebeu.

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"Lívia."

"Por favor."

Ela apertou a mochila.

"Não arruma problema."

A voz dela quase sumiu.

"Quando adulto arruma problema, quem paga sou eu."

Rafael ficou gelado.

Aquela frase confirmou tudo.

Nos dias seguintes, Rafael começou a visitar Lívia com mais frequência.

Sempre de forma cuidadosa.

Sempre com conhecimento da escola.

Sempre deixando claro que não queria assustá-la.

Levava livros.

Material escolar.

Um casaco novo quando percebeu que ela tremia no frio.

E uma caixa de lápis de cor que fez Lívia ficar olhando por quase um minuto sem tocar.

"É meu mesmo?"

"É."

"Não é emprestado?"

"Não."

"Não tenho que devolver depois?"

"Não."

Ela passou os dedos pela caixa.

Com delicadeza.

Como se fosse algo precioso demais.

"Obrigada."

A palavra saiu pequena.

Mas os olhos diziam muito mais.

Aos poucos, Lívia começou a falar.

Pouco.

Com cuidado.

Nunca reclamava diretamente de Dona Célia.

Nunca usava palavras como medo, fome ou castigo.

Mas deixava escapar pedaços.

"Se eu comer muito no jantar, os menores ficam sem."

"Quando tem visita, a gente ganha roupa melhor."

"Dona Célia diz que criança ingrata volta para abrigo pior."

Cada frase era uma porta entreaberta.

E Rafael, a cada dia, via mais escuridão atrás dela.

Dona Célia percebeu a mudança.

Lívia chegava da escola diferente.

Com livros novos.

Com olhar menos apagado.

Com pequenas esperanças escondidas nos bolsos.

Aquilo a irritava profundamente.

Porque crianças sem esperança eram mais fáceis de controlar.

Naquela noite, depois do jantar, Dona Célia chamou Lívia para a cozinha.

A menina entrou em silêncio.

"Está gostando dos presentinhos?"

Lívia não respondeu.

"Eu fiz uma pergunta."

"Estou."

Dona Célia sorriu sem carinho.

"Claro que está."

"Menina pobre adora migalha de rico."

Lívia apertou as mãos.

"Ele é bom."

A expressão de Dona Célia escureceu.

"Bom?"

Ela se aproximou.

"Você acha que ele se importa com você?"

Lívia ficou quieta.

"Ele está com pena."

"Só isso."

A voz dela baixou.

Cruel.

"Homem rico não adota menina de abrigo."

As palavras atravessaram Lívia como vidro.

"Ele vai cansar."

"Vai sumir."

"Vai voltar para a mansão dele."

"E você vai ficar aqui."

Dona Célia apontou para o chão.

"No seu lugar."

Lívia sentiu os olhos arderem.

Mas não chorou.

Não na frente dela.

Nunca na frente dela.

"Entendeu?"

"Entendi."

"Ótimo."

Dona Célia abriu a porta da cozinha.

"Agora vai dormir."

Lívia saiu devagar.

Levando consigo uma dor que parecia grande demais para caber em uma menina de nove anos.

Naquela madrugada, a casa estava silenciosa.

As outras crianças dormiam.

Lívia ficou sentada no colchão fino, com o celular antigo escondido debaixo do travesseiro.

Era um aparelho velho.

A tela rachada.

Quase sem memória.

Mas servia para uma coisa.

Guardar o número de Rafael.

Ela olhou para a conversa aberta.

Havia uma mensagem dele mais cedo.

"Boa noite, pequena. Não esqueça de ler só um capítulo. Amanhã tem aula."

Ela tinha sorrido quando recebeu.

Agora o sorriso não vinha.

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As palavras de Dona Célia ecoavam.

"Ele vai cansar."

"Vai sumir."

"Homem rico não adota menina de abrigo."

Lívia tentou ser forte.

Tentou fechar o celular.

Tentou dormir.

Mas o medo cresceu.

Porque ela gostava dele.

Gostava de verdade.

E gostar de alguém era perigoso.

Quanto mais a pessoa importava, mais doía quando ia embora.

Se ele fosse desaparecer, ela precisava saber antes.

Precisava preparar o coração.

Como preparava a mala.

Então, com os dedos tremendo, digitou devagar.

"Se um dia você não quiser mais vir, pode me avisar antes?"

Ela ficou olhando a mensagem.

Quase apagou.

Mas enviou.

Depois abraçou o celular contra o peito.

Como se fosse uma oração.

No apartamento luxuoso de Rafael, o silêncio era diferente.

Não era o silêncio de uma casa pobre cheia de medo.

Era o silêncio de uma cobertura enorme demais para um homem sozinho.

Rafael estava sentado no escritório.

Luz baixa.

Uma taça de água intocada.

Pilhas de documentos sobre a mesa.

Mas ele não lia nada.

À sua frente, havia um porta-retratos.

Bianca sorria na foto.

Cabelos presos.

Olhos vivos.

Segurando um desenho colorido.

Rafael tocou o vidro com a ponta dos dedos.

"Eu não sei o que estou fazendo, filha."

O celular vibrou.

Ele olhou.

Era Lívia.

Leu a mensagem.

Uma vez.

Duas.

Três.

A garganta fechou.

Os olhos arderam.

Porque aquela pergunta não era simples.

Era uma criança perguntando se seria abandonada de novo.

Era uma menina pedindo aviso prévio para uma dor que já conhecia.

Rafael fechou os olhos.

Por muito tempo.

Depois digitou.

Apagou.

Digitou novamente.

Apagou outra vez.

Nenhuma resposta parecia suficiente.

Antes que pudesse enviar qualquer coisa, outra mensagem chegou.

Desta vez de um número desconhecido.

Era uma foto.

Lívia aparecia sentada no canto da cozinha da casa de Dona Célia.

Sozinha.

Cabeça baixa.

Ao lado da imagem, apenas uma frase:

"Pare de se aproximar da menina, ou ela vai sofrer as consequências."

Rafael levantou devagar.

O rosto endureceu.

A tristeza desapareceu.

No lugar dela, nasceu algo muito mais perigoso.

Fúria.

Ele olhou para a foto de Bianca.

Depois para a mensagem de Lívia.

E sussurrou, com a voz quebrada:

"Eu não vou abandonar outra criança."

Mas, naquela mesma noite, na casa de Dona Célia, alguém abriu devagar a porta do quarto onde Lívia dormia.

E a mão que segurava a chave tremia de raiva.

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