O auditório começou a esvaziar.
As cadeiras dobráveis rangiam enquanto os pais se levantavam.
As crianças corriam de um lado para o outro exibindo seus certificados.
Flashs iluminavam o ambiente.
Abraços aconteciam por toda parte.
Era um daqueles momentos simples que as pessoas costumavam guardar para sempre.
Lívia observava tudo em silêncio.
Ela segurava seu diploma contra o peito.
Tentando decorar aquela sensação.
Porque não sabia quando voltaria a senti-la.
Talvez nunca.
Rafael continuava ao seu lado.
Ainda parecia estranho para ela.
Como se tudo aquilo fosse um sonho.
Como se bastasse piscar para ele desaparecer.
Uma menina passou correndo.
"Pai! Olha minha foto!"
Um garoto levantou o certificado.
"Mãe! Eu consegui!"
Outra criança recebeu um enorme buquê de flores.
Lívia sorriu para todos.
Mas seus olhos começaram a procurar alguém.
Instintivamente.
Como fazia sempre.
Olhou para a porta.
Depois para o estacionamento.
Depois para o portão da escola.
Nada.
Ninguém.
Rafael percebeu.
"O que foi?"
Lívia demorou alguns segundos para responder.
"Dona Célia ainda não chegou."
Rafael olhou para o relógio.
A cerimônia havia terminado fazia quase quarenta minutos.
"Ela sabia da formatura?"
"Sabia."
"Talvez esteja atrasada."
Lívia não respondeu.
Apenas baixou os olhos.
Aquilo já era uma resposta.
Os minutos continuaram passando.
Uma hora.
Depois mais alguns minutos.
O pátio ficou quase vazio.
As últimas famílias começaram a ir embora.
Os professores recolhiam cadeiras.
Os funcionários fechavam algumas salas.
E Lívia continuava esperando.
Sozinha.
Rafael sentiu uma raiva silenciosa crescer dentro dele.
Porque aquela menina já tinha aprendido a esperar abandono como se fosse algo normal.
Finalmente ele perguntou:
"Você quer ligar para ela?"
Lívia balançou a cabeça.
"Não precisa."
"Por quê?"
Ela respondeu com uma naturalidade assustadora.
"Porque ela esqueceu."
O coração de Rafael apertou.
"Esqueceu?"
Lívia assentiu.
"Dona Célia esquece muitas coisas."
Falou como quem comenta sobre o clima.
Sem revolta.
Sem mágoa aparente.
Como alguém acostumado.
E isso foi o que mais machucou Rafael.
Porque nenhuma criança deveria se acostumar a ser esquecida.
Pouco depois, os dois saíram da escola.
O SUV preto aguardava no estacionamento.
Lívia parou diante do carro.
Os olhos arregalados.
Ela nunca tinha visto um veículo daqueles tão de perto.
"É seu?"
"É."
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Depois perguntou:
"Você é cantor?"
Rafael piscou.
"O quê?"
"Os cantores têm carros assim."
Pela primeira vez naquele dia, Rafael riu de verdade.
Uma gargalhada curta.
Mas sincera.
"Não. Eu não sou cantor."
"Jogador de futebol?"
"Também não."
"Então o que você faz?"
Rafael pensou.
Era engraçado perceber que aquela criança não fazia ideia de quem ele era.
Nenhuma.
E aquilo era estranhamente agradável.
"Eu trabalho com empresas."
Lívia pareceu decepcionada.
"Ah."
"Esperava algo mais interessante?"
"Um pouco."
Rafael sorriu.
E abriu a porta para ela.
Lívia entrou com cuidado.
Muito cuidado.
Como se pudesse estragar alguma coisa.
Sentou apenas na pontinha do banco.
Sem encostar nas laterais.
Sem tocar em nada.
As mãos pousadas sobre os joelhos.
Rafael percebeu.
"Você pode relaxar."
"Tem certeza?"
"Tenho."
"Isso deve custar mais que uma casa."
Ele quase riu novamente.
"Talvez."
Lívia imediatamente afastou as mãos da porta.
Como se tivesse tocado ouro.
Alguns minutos depois chegaram a uma pequena sorveteria perto do Parque Ibirapuera.
Nada luxuoso.
Nada sofisticado.
Mas acolhedora.
Lívia entrou olhando tudo ao redor.
Parecia encantada.
"Eu posso escolher qualquer sabor?"
"Pode."
"Mesmo?"
"Mesmo."
Ela ficou parada diante do balcão durante quase dois minutos.
Analisando cada opção.
Como se estivesse tomando uma decisão que mudaria sua vida.
Por fim apontou.
"Morango."
"Boa escolha."
Quando os sorvetes chegaram, Lívia sorriu.
Era um sorriso pequeno.
Mas verdadeiro.
E Rafael percebeu algo.
Ela parecia feliz com muito pouco.
Porque provavelmente nunca teve muito.
Sentaram-se próximos à janela.
Por alguns minutos apenas comeram em silêncio.
Então Rafael perguntou:
"Há quanto tempo você mora com Dona Célia?"
"Uns oito meses."
"E antes?"
Lívia deu de ombros.
"Outro lugar."
"E antes desse?"
"Outro."
Rafael franziu a testa.
"Quantos lares você já teve?"
Ela começou a contar nos dedos.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
"Seis."
Rafael ficou imóvel.
"Nove anos de idade."
"Seis casas."
Ela assentiu.
Como se fosse algo normal.
Mas não era.
Não deveria ser.
"E seus pais?"
O sorriso desapareceu.
Imediatamente.
"Eles morreram."
Rafael já sabia.
Mas ouvir aquilo da própria Lívia foi diferente.
Mais pesado.
Mais real.
"Foi há dois anos."
Ela olhou para o sorvete.
"Meu pai trabalhava como motorista."
"Mamãe era costureira."
Sua voz ficou mais baixa.
"Eles voltavam para casa."
"Um homem bêbado atravessou o sinal."
Silêncio.
Lívia continuou.
"Depois eu fui para um abrigo."
"Depois para uma casa."
"Depois outra."
"Depois outra."
Ela mexeu na colher.
Sem encarar Rafael.
"Você sabe qual é a pior parte?"
"Qual?"
"Desfazer a mala."
Ele não entendeu.
Então ela explicou.
"Eu não gosto de tirar minhas roupas da mala."
"Por quê?"
A resposta destruiu Rafael.
"Porque toda vez que eu tiro..."
Ela respirou fundo.
"Eles me mandam embora."
Silêncio.
Completo.
Pesado.
Rafael sentiu um nó na garganta.
Porque aquela menina falava de rejeição como quem fala de matemática.
Sem drama.
Sem lágrimas.
Porque já tinha sofrido tantas vezes que aprendera a esconder a dor.
Lívia voltou a sorrir.
Tentando mudar de assunto.
"Mas esse sorvete está muito bom."
Aquilo quase o fez chorar.
Enquanto isso...
Do outro lado da cidade...
Dona Célia estava desesperada.
Ela havia chegado atrasada à escola.
Mas quando chegou, Lívia já tinha ido embora.
Com Rafael Monteiro.
E isso era um problema enorme.
Muito maior do que a menina imaginava.
Porque Dona Célia conhecia aquele nome.
Todo mundo conhecia.
Rafael Monteiro tinha dinheiro.
Influência.
Advogados.
Contatos.
E pior.
Tinha poder suficiente para investigar.
Ela começou a andar pela sala.
Nervosa.
Inquieta.
Suando.
Se Rafael começasse a fazer perguntas...
Se assistentes sociais resolvessem aparecer...
Se alguém investigasse suas contas...
Tudo poderia acabar.
Os repasses do governo.
As doações.
Os benefícios.
Tudo.
Ela pegou o telefone.
Ligou para alguém.
"Precisamos conversar."
A voz do outro lado perguntou:
"Por quê?"
Dona Célia engoliu seco.
"Porque Rafael Monteiro apareceu."
O silêncio que seguiu foi assustador.
Anoitecia quando Rafael estacionou diante da casa de Dona Célia.
Era uma construção simples.
Velha.
Com pintura desgastada.
Lívia segurava o certificado no colo.
Parecia menos animada agora.
Talvez porque o dia estivesse terminando.
Talvez porque temesse que a magia acabasse junto com ele.
Rafael desligou o motor.
"Chegamos."
Ela assentiu.
Mas não abriu a porta.
Ficou olhando para as mãos.
"Posso fazer uma pergunta?"
"Claro."
"Você vai embora agora?"
A pergunta atingiu Rafael em cheio.
Porque havia medo nela.
Muito medo.
"Vou para casa."
Lívia assentiu.
Tentando parecer forte.
Mas os olhos estavam brilhando.
Então Rafael respondeu:
"Mas isso não significa que você nunca mais vai me ver."
Ela levantou a cabeça rapidamente.
"Não?"
"Não."
A esperança surgiu tão rápido que quase doeu observá-la.
"Você voltaria?"
Rafael demorou alguns segundos.
Mas respondeu com sinceridade.
"Eu gostaria."
Lívia sorriu.
E aquele sorriso ficou gravado em sua memória.
Dona Célia apareceu antes mesmo de eles chegarem à porta.
Sorridente.
Exageradamente sorridente.
"Seu Rafael!"
"Que honra!"
"Eu estava tão preocupada!"
Mentira.
Rafael percebeu imediatamente.
Mas não comentou.
"Obrigado por trazer a Lívia."
"Ela falou muito sobre o senhor."
Lívia baixou os olhos.
Porque sabia que aquilo também era mentira.
Dona Célia quase nunca perguntava nada.
Muito menos sobre seus sentimentos.
Mas diante de Rafael parecia uma atriz perfeita.
Gentil.
Carinhosa.
Atenciosa.
Quando Rafael finalmente se despediu e entrou novamente no carro...
A expressão dela mudou.
Instantaneamente.
O sorriso desapareceu.
Os olhos ficaram frios.
Perigosamente frios.
Ela agarrou o braço de Lívia.
Com força.
"Você está achando que ganhou na loteria?"
Lívia se assustou.
"Não."
"Então escute bem."
A voz saiu baixa.
Agressiva.
"Homens ricos não salvam meninas pobres."
Lívia permaneceu em silêncio.
"Você entendeu?"
"Sim."
"Não comece a sonhar."
Ela apertou ainda mais.
"Menina pobre não sonha alto."
As palavras entraram como facas.
Porque era exatamente isso que Lívia estava tentando não fazer.
Sonhar.
Esperar.
Acreditar.
Ela apenas assentiu.
"Sim, Dona Célia."
Lá fora.
Rafael ainda não tinha ido embora.
Estava respondendo mensagens no celular.
Centenas delas.
Diretores.
Advogados.
Executivos.
Mas algo chamou sua atenção.
Uma movimentação próxima à janela.
Lívia.
Ela estava parada no corredor.
Olhando discretamente para fora.
Como se quisesse confirmar que ele realmente ainda estava ali.
Quando percebeu que ele a viu, sorriu.
E acenou.
Rafael respondeu com um aceno também.
Mas naquele instante...
Algo diferente chamou sua atenção.
O punho da manga do vestido subiu ligeiramente.
E por apenas um segundo...
Ele viu.
Uma marca.
Arroxeada.
Quase escondida.
No pulso de Lívia.
Rafael congelou.
A expressão desapareceu.
O empresário calmo sumiu.
O homem que enfrentava investidores e tribunais voltou a existir.
Porque aquilo não parecia um acidente.
Parecia um hematoma.
Ele saiu imediatamente do carro.
Caminhou até a porta.
Dona Célia ainda estava no corredor.
Sorrindo.
Fingindo.
Mas Rafael já não prestava atenção em mais nada.
Seu olhar estava fixo no braço da menina.
A voz saiu fria.
Perigosamente fria.
Muito diferente da que Lívia ouvira durante todo o dia.
"Quem fez isso nela?"
E pela primeira vez...
Dona Célia pareceu assustada.