Capítulo 029: Sem Vantagem Alguma
Desde quando a Pérola se tornara alguém que nem ela conseguia decifrar? Cecília tentava encontrar um momento específico, mas parecia que a mudança ocorrera de forma imperceptível.
Pérola sempre fora sua maior alegria: equilibrada, madura e de uma pureza cristalina. Agora, embora o sorriso e o olhar parecessem os mesmos, havia uma aura diferente.
Será que algo aconteceu e ela não nos contou?
, preocupava-se a mãe.
Decidida a não pressionar a filha, Cecília voltou-se para Fabiana: — E o seu desfile, quanto tempo levará para organizar? Quero ver se consigo ajustar minha agenda para prestigiá-la.
Prestigiar-me?
Fabiana sentiu um desdém interno. Ela acreditava que Cecília era tola o suficiente para ser enganada por anos e que sua rispidez anterior fora apenas um momento passageiro de favoritismo pelos próprios filhos.
Melhor assim
, pensou Fabiana,
quanto mais tola ela for, mais fácil será agir.
— Ainda não defini a data, mas se o ateliê correr bem, creio que em menos de um mês faremos o desfile. Já trouxe todas as peças prontas do exterior.
Pérola sorriu por dentro ao ouvir o prazo.
Menos de um mês?
Isso coincide com o desfile da Bianca.
Se ela espalhasse alguns boatos ou fizesse Bianca investir em marketing, Fabiana, que não suportava ser ofuscada, tentaria antecipar a data ou até faria o desfile no mesmo dia para "atropelar" a rival.
Fabiana queria usar Bianca, filha da influente família Bianca, como degrau para o sucesso.
O que ela não sabia era que Pérola dera a Bianca designs de um nível que Fabiana jamais conseguiria alcançar.
— Quando definir a data, avise-me — disse Cecília. — Desejo sucesso ao seu desfile.
Após os agradecimentos, Fabiana olhou para Alce, que estava no canto da sala, e teve uma ideia: — Pérola, você conhece muita gente em São Paulo. Vou precisar de pessoal para o ateliê. Poderia me indicar alguns nomes? Não precisam ser gênios, apenas pessoas confiáveis e com algum senso de moda.
— Você quer que
eu
indique pessoas para você? — Pérola pousou o copo de leite lentamente, mantendo um sorriso elegante que escondia um brilho de diversão. — Está falando sério?
Fabiana ficou surpresa. A Pérola que ela pesquisara era uma "dama refinada e passiva", não essa mulher de temperamento enigmático. — Sim, estou fora há muitos anos. Vi que você arranjou ótimos assistentes para a cunhada e pensei em pedir sua ajuda. Se for difícil, darei um jeito.
— Então dê o seu jeito. De fato, é algo muito difícil para mim — respondeu Pérola, curta e grossa.
Alce e Cecília ficaram atônitas com a franqueza. Cecília percebeu que a filha realmente detestava Fabiana e, como mãe "coruja" e parcial, decidiu apoiar a filha, mesmo sem entender os motivos.
Ela tentou suavizar a situação: — Fabiana, a Pérola é muito caseira e tem poucos amigos. A Alce foi um encontro casual. Talvez eu possa ajudá-la falando com algumas damas da alta sociedade que conheço...
Fabiana entrou em pânico interno. Ela não queria a ajuda de Cecília! Se Cecília a ajudasse, ganharia a fama de "cunhada bondosa", e Fabiana ficaria em dívida. Ela só queria provocar Pérola. — Não se incomode, cunhada. Vou pedir ajuda aos meus irmãos e cunhadas da família Oliveira. Não quero que você deva favores a ninguém por minha causa.
A manhã terminou com Fabiana saindo da mansão bufando de raiva contida, sentindo-se humilhada.