Capítulo 023: Uma Adaga
— Não se trata de gostar ou não. É que o comportamento de vocês é confuso. Embora a família Paes seja a principal linhagem de São Paulo, sempre fomos discretos. O senhor ficou fora por doze anos e, ao voltar, expôs a família a esse alvoroço mediático. Como membro desta família, eu pessoalmente detesto isso.
As palavras de Pérola eram lógicas e fundamentadas, mas Zeca e Fabiana sentiam que o desprezo dela ia além disso.
— Quanto a convidados que aparecem sem avisar, talvez a reação minha e do Arthur tenha sido um pouco exagerada. Afinal, não é um crime. No fim das contas, não podemos exigir dos outros os mesmos padrões que exigimos de nós mesmos.
A implicação era mordaz: a falta de educação da família Oliveira era um fato incontestável. Pérola estava dizendo que, embora eles jamais cometessem tal gafe, não podiam esperar que pessoas de "outro nível" tivessem a mesma classe.
Pérola não deu tempo para resposta. — Se não há mais nada, eu e Arthur vamos subir. Ele tem deveres de casa e eu preciso praticar piano.
Arthur, que acabara de ser escalado para "fazer lição": — ...
Desde quando eu tenho lição de casa?
, pensou ele, mas manteve-se em silêncio absoluto enquanto subiam.
Ricardo e Cecília trocaram um olhar e depois observaram os rostos lívidos de Zeca e Fabiana. Cecília tossiu levemente e disse: — Fabiana, não leve a mal. Pérola e Arthur foram mimados por nós, têm esse gênio difícil.
Mimados? Gênio difícil?
Todos em São Paulo sabiam que os filhos de Ricardo Paes eram o modelo de perfeição. Fabiana sentiu que Cecília não estava repreendendo os filhos, mas sim ostentando o orgulho que sentia deles.
— Imagina, cunhada, eu não me importaria. Afinal, eles apenas disseram a verdade, só foram um pouco diretos demais.
— Ser direto em uma família como a nossa não é exatamente uma virtude. Mas enfim, eu e o Ricardo os estragamos com tanto mimo. Eles já são grandes, não vão mudar agora. Felizmente a família Paes tem posses e eles são espertos o suficiente para não serem passados para trás. Como mãe, já estou satisfeita.
Cecília falava com um tom de "falsa lamentação", mas seu rosto brilhava de orgulho, deixando Fabiana e Zeca fervendo de ódio contido.
...
No quarto, Pérola não foi descansar. Ela foi para a varanda e observou o céu escuro, sem estrelas. O silêncio da mansão nos arredores da cidade trazia à tona sentimentos de sua vida passada: solidão, vazio, ódio.
Ela olhou para o celular. O nome de Thiago estava na tela. Seus dedos hesitaram várias vezes antes de tocar no botão de chamada. Havia coisas que ela não entendia da vida passada, como o porquê de Thiago ter tido tantas namoradas sucessivas e aceitado traições com tanta passividade. Ela precisava vê-lo pessoalmente.
Nesse momento, o celular vibrou.
“O que você pediu está pronto. Enviei por um mensageiro, chega amanhã.”
Pérola arqueou a sobrancelha.
Tão rápido?
Ela se lembrou do segundo dia após seu renascimento, quando sentiu que uma faca de cozinha comum não era equilibrada o suficiente. Ela entrou em contato com um mestre armeiro que conhecera na vida passada. A adaga que ele criava era uma obra-prima de bilhões, capaz de cortar metal como se fosse papel.
Na vida anterior, foi Thiago quem conseguiu essa arma para ela. Desta vez, ela mesma conseguiu, usando informações secretas sobre os inimigos do mestre como moeda de troca.
...
Na manhã seguinte, Pérola recebeu o pacote. Arthur, voltando de sua corrida matinal, viu a irmã abrindo a caixa.
— Uma adaga, maninha? Por que um amigo te daria isso?
— É uma peça de artesanato para coleção — mentiu ela com naturalidade.
A adaga tinha cerca de trinta centímetros, com bainha cravejada de pequenos diamantes vermelhos legítimos. Pérola a desembainhou. O aço brilhava com um padrão de ranhuras finas e precisas.
Arthur tentou tocar a lâmina, mas Pérola desviou rapidamente. — Cuidado, ela está afiada.
— Eu não sou criança, sei medir a força — resmungou Arthur, mas Pérola apenas sorriu. Assim que ele subiu para o banho, ela encostou a lâmina em uma maçã sobre a mesa; sem qualquer pressão, a fruta se partiu ao meio. Satisfeita, ela escondeu a arma na manga de seu vestido longo de estilo clássico.
Ao entardecer, Pérola saiu de casa sozinha. Todos pensaram que ela ia encontrar amigos, mas seu destino era bem diferente: os bairros antigos da periferia.