Capítulo 020: Arrogância Cega
Até mesmo Zeca e Fabiana, que eram mais dissimulados, quase perderam a compostura. Eles usaram a desculpa de levar as malas para os quartos para saírem de cena por um momento.
Cecília não se importou e continuou a recepção calorosa aos Oliveira.
Zeca não morava na casa principal. Antes de viajar, ele tinha um anexo próprio na propriedade dos Paes, e voltaria a morar lá. Assim que saíram da sala barulhenta, o sorriso de Fabiana desapareceu. Ela só relaxou quando o criado que levava as malas se afastou. Mesmo assim, Zeca lhe lançou um olhar de advertência.
Ao entrarem no anexo, Fabiana explodiu em reclamações. Se não fosse pelo risco de ser notada, ela teria quebrado o vaso de flores sobre a mesa. Frustrada, deu um chute no sofá: — Que raiva! O Ricardo e a Cecília eu até entendo, mas aqueles sobrinhos nem olharam na minha cara direito! Eu nunca fui tratada assim no exterior! E ainda na frente da minha família... eles fizeram de propósito para me humilhar!
O chute com salto alto doeu. Fabiana começou a pular de dor, o que piorou seu humor. Zeca sentou-se no sofá, ignorando o drama dela. Ele também estava de péssimo humor.
— Esta é a casa dos Paes. Controle-se. Se sua impulsividade estragar meus planos, não terei piedade — disse Zeca, friamente.
Fabiana calou-se imediatamente. Ela sabia que Zeca não era um homem bom e que não hesitaria em descartá-la se ela se tornasse um estorvo. Ela sentou-se ao lado dele, dengosa: — Zeca, eu só me exaltei porque estamos sozinhos. Na frente dos outros, eu juro que serei impecável. Me perdoa, vai?
— Lembre-se do que disse.
Com o humor de Zeca melhorando levemente, Fabiana relaxou. — Não seja tão bravo comigo...
Zeca, afetado pela proximidade dela, sentiu um desejo repentino. Se não estivessem acabando de chegar e precisassem manter a imagem perante Ricardo e Cecília, ele a teria tomado ali mesmo.
— Lembre-se: de agora em diante, cautela máxima. Não importa o que sinta ou a raiva que passe, engula tudo. Haverá tempo para o troco.
— Eu acredito em você! — disse Fabiana, embora um brilho de vingança cruzasse seus olhos. Ela faria Pérola pagar por cada minuto de hoje. — Zeca, você acha que eles suspeitam de algo? Por que nos deram aquele gelo logo de cara?
— Não. Meu irmão e minha cunhada não suspeitam de nada. E quanto aos dois pirralhos, o que importa se suspeitarem? — disse Zeca, arrogante.
Arthur era apenas um garoto de dezessete anos, e Pérola... bem, ele nem a considerava. Ricardo e Cecília confiavam nele plenamente; a imagem que tinham era do Zeca de doze anos atrás, que sempre fora "obediente". Ele tinha confiança de que os destruiria antes que notassem qualquer coisa.
— Mas por que a Cecília defendeu a Pérola tão abertamente quando ela me desrespeitou? Antes ela era tão calorosa por telefone, estava até animada para ajudar no nosso casamento... por que mudou hoje?
— Os Paes são famosos por mimar os filhos, especialmente a filha. Por mais que ela goste de você, a Pérola sempre virá primeiro. Ela só tomou o partido da filha, não foi exatamente rude com você.
Olhando para a sala limpa e bem decorada, Zeca continuou: — Pela decoração aqui, Cecília realmente se esforçou. Se ela suspeitasse de nós, não teria cuidado de cada detalhe, como aquele vaso ali, que vale milhões. Um criado não faria isso sem ordens explícitas dela ou do Ricardo.
Fabiana olhou ao redor. Realmente, estava tudo impecável. — Então você acha que foi apenas favoritismo materno? Nada mais?
— Talvez estejamos pensando demais — disse Zeca. — O Arthur era um bebê quando saímos. Sabemos que ele é brilhante, mas ainda é uma criança. A Pérola... bem, ela é uma celebridade, é fácil saber da vida dela. Ela é apenas uma herdeira que não entende nada além de música, com uma mente pura.
— No entanto, eles são inteligentes. A grosseria de hoje provavelmente foi porque viram as notícias e perceberam que nós vazamos a informação para os jornalistas. Herdeiros orgulhosos como eles detestam esse tipo de publicidade barata.
— Você quer dizer... que eles agiram assim só por causa da imprensa? — Fabiana refletiu e achou possível. Pérola e Arthur sempre viveram no luxo, sem dificuldades; como teriam uma percepção tão aguçada de perigo?
Zeca pensava o mesmo. Sua autoconfiança e o desprezo por Pérola — a quem via apenas como um "vaso decorativo" — seriam o seu maior erro. Ele não imaginava o preço que pagaria por essa subestimativa.
Enquanto isso, no escritório do segundo andar da casa principal...
Cecília chamou os dois filhos para uma conversa privada, usando uma desculpa qualquer. Ricardo permaneceu na sala para entreter os convidados e distraí-los enquanto a esposa interrogava os jovens.
— Eu os criei e conheço o temperamento de vocês melhor que ninguém. Vocês nunca causariam problemas sem motivo, muito menos humilhariam alguém em público sem razão — disse Cecília, sentada no sofá do escritório. — Agora, falem. O que está acontecendo de verdade?