Capítulo 005: Uma Habilidade Inesperada
Pérola Paes era uma musicista de prestígio nacional, especializada em harpa chinesa (Konghou). Sua rotina profissional consistia em apresentações solo ou com orquestras em concertos e festivais, além de eventuais eventos de promoção de instrumentos tradicionais.
Recentemente, ela não tinha compromissos agendados e passava os dias em casa. Xênia, sua mãe, sendo pianista, tinha uma rotina semelhante e também desfrutava de um período de recesso.
Enquanto Paulo ia para a empresa e Pietro para a escola, Pérola e Xênia ficavam sozinhas na mansão. Elas passavam o tempo praticando instrumentos, preparando chá para cultivar a serenidade, cuidando do jardim ou, quando o ânimo surgia, aventurando-se na cozinha para preparar alguma refeição especial.
Em suma, a vida era extremamente tranquila e agradável.
Após três dias nesse ritmo, Xênia finalmente não aguentou e começou a "reclamar" da presença constante da filha. No momento, as duas estavam no jardim podando algumas plantas, cada uma com uma tesoura de jardinagem nas mãos.
Xênia observou Pérola, que trabalhava com uma concentração incomum, e comentou: — Pérola, você não fica entediada passando o dia inteiro em casa comigo?
— Nem um pouco, mãe — respondeu Pérola com um sorriso genuíno.
Como ela poderia se entediar? Ter a companhia da família era tudo o que ela mais desejava. Além disso, em sua vida passada, ela viveu até os cinquenta anos como a poderosa líder da família Steiner e a temida "Viúva Negra" de São Paulo; ela já estava mais do que acostumada com a calmaria de uma vida refinada quando não estava no campo de batalha dos negócios.
— Os jovens não costumam gostar de sair? Chame alguns amigos para se divertir. Nossa família não é cheia de regras conservadoras; se você quiser ir a uma casa noturna, ninguém vai te impedir, desde que não seja em algum lugar estranho onde não tenhamos conhecidos.
Xênia falava com tranquilidade pois sabia que, nos lugares frequentados pela elite, sempre haveria alguém para cuidar de sua filha.
Pérola olhou para ela com diversão. — Mãe, a senhora já está enjoada de me ver em casa todo santo dia?
Enjoada não era a palavra certa, mas Xênia achava que uma jovem da idade dela deveria estar explorando o mundo, e não trancada com uma mulher de meia-idade. Com esse temperamento retraído, não era de se estranhar que tivessem que organizar encontros às cegas para ela.
Xênia não escondeu o jogo: — Que bom que você percebeu!
— Mas mãe, eu não tenho ninguém para chamar.
Xênia deu um olhar de reprovação: — Como assim não tem ninguém? Você não disse outro dia que achou o Thiago Steiner interessante? Até me pediu o número dele. Poderia convidá-lo para sair! Ou então o Felipe Vasconcelos, ou qualquer outro dos seus amigos de infância.
Ao ouvir o nome de Thiago, o movimento da tesoura de Pérola hesitou por um milésimo de segundo. Ela ainda não se sentia emocionalmente pronta para encará-lo. Além disso, pelo que se lembrava, ele estava muito ocupado com o trabalho nesta época. Era melhor esperar um pouco.
— Eu só queria aproveitar o tempo para ficar com a senhora, já que fazia tempo que não fazíamos isso. E agora a senhora reclama? — brincou Pérola. — Além disso, a senhora também não sai muito. Veja as outras damas da sociedade, vivem de evento em evento, e a senhora raramente aparece.
— Eu sou uma dama da sociedade comum? Eu tenho uma carreira séria. Agora que estou de férias, seria burrice procurar trabalho social para fazer — rebateu Xênia com orgulho.
Pérola deu de ombros, rindo: — Pois saiba que sua filha também não é uma herdeira comum. Mãe, não se preocupe comigo. Se eu fosse do tipo que vive em festas loucas por aí, a senhora é quem estaria preocupada de verdade.
Xênia sorriu, convencida: — É verdade... Tudo bem, desisto de discutir com você.
No fundo, Pérola tinha razão. Havia tantos playboys e garotas problemáticas no círculo social deles que muitas mães viviam à base de calmantes. Xênia pensou que, por seus dois filhos serem tão brilhantes e responsáveis, ela quase não tinha a oportunidade de exercer seu "papel de mãe" preocupada.
Observando o sorriso radiante da mãe, o olhar de Pérola tornou-se profundo. Enquanto podava um arbusto, perguntou como quem não quer nada: — Mãe, a Fabiana Vasconcelos entrou em contato de novo? Sabe exatamente que dia eles chegam?
Na vida passada, ela não dava a mínima para a data de retorno de Fabiana e de seu tio, Hugo Paes. Lembrava-se apenas de que fora por esses dias.
Xênia balançou a cabeça: — Ela não ligou mais, mas deve ser a qualquer momento. — Ela olhou para a filha com curiosidade. — Pérola, por que você parece tão interessada nisso agora? Que eu me lembre, você quase não tinha contato com seu tio Hugo e a Fabiana enquanto eles moraram fora todos esses anos.
Pérola baixou as pálpebras para esconder o brilho gélido em seus olhos. Ao retomar o controle, sorriu: — Justamente por não termos contato é que eu me preocupo. Afinal, somos família, não é?
Embora achasse o interesse repentino estranho, Xênia concordou. — É verdade. Seu pai e eu pretendemos ajudá-los a organizar o casamento. O Hugo e a Fabiana estão fora há doze anos, ambos já completaram trinta anos. Está mais do que na hora de oficializarem essa união.
Ao ouvir sobre o casamento, o olhar de Pérola tornou-se afiado.
Seu tio — ou melhor, tio nominal — Hugo Paes, era um órfão que seu avô acolhera por piedade muitos anos atrás. Ele era dezoito anos mais novo que seu pai, Paulo. Hugo cresceu junto com Fabiana Vasconcelos, a filha ilegítima dos Vasconcelos. Ambos foram estudar no exterior após o colégio e lá ficaram por doze anos.
Um era um filho adotivo, a outra uma filha ilegítima. A família Paes nunca os tratou com indiferença. Hugo recebia o mesmo tratamento de um filho biológico, e Fabiana, que era desprezada pelos Vasconcelos, passou a ser valorizada após o noivado com Hugo, selado pessoalmente pelo avô de Pérola.
Quando o avô faleceu, os dois nem sequer voltaram para o funeral, alegando "estudos intensos". A família Paes, em sua bondade infinita, tentou compreendê-los e não guardou mágoas. E agora, seus pais ainda queriam organizar o casamento deles.
Eles foram tratados com toda a generosidade do mundo. E como retribuíram? Destruindo a família e deixando Pérola na miséria e na solidão. Eram cobras ingratas!
— Mãe, não tenha pressa em organizar os detalhes do casamento. Espere eles voltarem para decidirem juntos. Eles moraram fora por muito tempo, o gosto deles deve ser diferente do nosso. Se a senhora preparar tudo agora e eles não gostarem, terá sido um esforço em vão — sugeriu Pérola, querendo evitar que a mãe perdesse tempo com aqueles dois.
Preparar um casamento? Eles que esperassem por um funeral!
— Sim, claro. Vamos conversar com eles primeiro.
Enquanto falava, o olhar de Xênia caiu sobre as mãos de Pérola. Ela notou que a filha manuseava a tesoura de jardinagem com uma agilidade e precisão impressionantes.
— Pérola... estou impressionada. Você parece ser mais habilidosa na poda do que eu! Se não me engano, esta é a primeira vez que você me ajuda no jardim, não é? Eu estava até preocupada que a tesoura fosse pesada demais para as suas mãos de musicista, mas você leva um jeito natural para ser jardineira.
A mão de Pérola congelou por um instante. Logo, ela retomou a postura natural: — Mãe, é assim que a senhora elogia sua própria filha?
Antigamente, ela jamais teria essa destreza. Mas a Pérola com as memórias da vida passada não aprendeu apenas a gerir empresas. Suas habilidades de combate e manuseio de armas foram ensinadas pessoalmente por Thiago. Para manter o controle sobre a misteriosa família Steiner e ganhar a fama de impiedosa, suas habilidades físicas tinham que ser de elite.
Felizmente, sua mãe não era uma especialista em artes marciais ou tática, senão teria percebido algo. Ela fora descuidada. Expor suas habilidades diante da família não era o ideal, mas diante de inimigos seria fatal. Ela precisava "fingir ser um porco para comer o tigre" — ser inofensiva por fora e letal por dentro.
Ela não queria que ninguém soubesse de suas verdadeiras capacidades ainda.
Largou a tesoura. — Melhor eu parar por aqui, ou a senhora vai continuar me comparando a uma jardineira. Realmente, já fiquei em casa tempo demais. Vou ligar para o Felipe e para a Lara Oliveira para sairmos um pouco.
Ao ouvir que a filha finalmente ia ver os amigos, Xênia se iluminou: — Vá, vá logo! Divirta-se e não tenha pressa de voltar. Só chegue antes da meia-noite. Se precisar de qualquer coisa, ligue!