Capítulo 004: O Número de Telefone
Em sua memória, seus pais haviam partido há vinte e oito anos. Receber o carinho e o cuidado deles era algo que pertencia a um passado quase esquecido.
Na vida anterior, ela evitava revisitar as lembranças dos dias felizes com a família, pois cada vez que tentava se recordar, a primeira imagem que surgia era sempre a forma trágica e dolorosa como eles deixaram este mundo.
Mais uma vez, Pérola sentiu uma gratidão imensa por poder recomeçar.
Engolindo o nó na garganta, ela segurou a mão de Xênia, que ainda repousava em sua testa, e sorriu suavemente: — Mãe, eu estou bem, sério.
— Realmente, a febre baixou. Mas olhe para você... já é uma mulher feita e ainda se deixa ficar nesse estado — ralhou Xênia, embora seus olhos transbordassem ternura.
Pérola abraçou o braço da mãe e o balançou levemente. — Foi só a mudança repentina de temperatura, eu não prestei atenção. Já passou, mãe. Foi só uma febre alta; tomei o remédio, dormi e agora estou nova em folha. Veja, não estou ótima?
— Ótima nada. Olhe para o seu rosto, está pálida como um fantasma.
Apesar da melancolia que sentia, Pérola estava genuinamente feliz naquele momento. — Mãe, eu estou com fome. O Pietro disse que o jantar já estava pronto. Vamos comer?
— Olhe só para isso... uma musicista famosa fazendo manha para a mãe, que coisa feia — brincou Xênia, mas sem afastar o braço da filha. Ela chamou Paulo, que ainda estava no sofá: — Vamos jantar.
Paulo levantou-se prontamente. Pérola virou-se para ele e o observou por alguns instantes antes de desviar o olhar, comprimindo levemente os lábios. Ela jurou a si mesma que manteria aquela cena de harmonia familiar para sempre; não permitiria que ninguém destruísse um fragmento sequer daquela felicidade.
Eles se dirigiram à sala de jantar e ocuparam seus lugares habituais. Durante a refeição, Paulo olhou para Pérola e perguntou de repente: — Ainda está brava comigo?
Pérola, cujos pensamentos ainda oscilavam entre o presente e as sombras do passado, demorou alguns segundos para processar a pergunta. Ela balançou a cabeça rapidamente: — Não, de jeito nenhum.
Na vida passada, neste exato momento, ela estava furiosa. Um casamento arranjado por interesse ou conveniência não era, de forma alguma, o que ela imaginava para o seu futuro. Ela queria ser dona do próprio destino e não aceitava que sua união fosse decidida em um jantar formal.
Mas agora, ela não sentia raiva. Pelo contrário, sentia um alívio imenso. Se não fosse por aquele encontro, talvez ela nunca tivesse conhecido Thiago. E sem conhecer Thiago, ela provavelmente teria morrido naquela queda anos depois. Se ela morresse, quem vingaria sua família?
Indo além, mesmo sem a intervenção de Thiago, ela não teria tido forças para se vingar sozinha. Ela era uma artista renomada, sim, mas seu talento estava no mundo da música, algo que pouco afetaria seus inimigos no campo de batalha da elite. Toda a habilidade de combate e estratégia que usou para fazer justiça fora ensinada por Thiago. E tudo começou com aquele encontro.
Paulo a estudou por um momento e, convencido de que ela falava a verdade, assentiu: — Que bom que não está brava.
— Pérola, eu sei o que você pensa sobre casamentos, por isso escondi o verdadeiro propósito do almoço de hoje. Mas eu jamais faria algo para te prejudicar. O Thiago é um talento raro e um homem de caráter íntegro. Eu o observei por muito tempo antes de decidir apresentá-lo a você. Gostaria que você considerasse a ideia.
— Mas, claro, se você realmente não gostar dele, eu jamais te obrigaria a nada — concluiu o pai.
E ele falava a verdade. Na vida passada, após a oposição ferrenha dela, seus pais nunca mais tocaram no assunto.
— Pérola, não nos culpe. Se você tivesse demonstrado interesse por alguém, não estaríamos tentando te apresentar pretendentes. Você se formou há quatro anos e nunca vimos um amigo homem por perto... estamos preocupados com você — acrescentou Xênia.
Pérola suspirou, resignada: — Mãe, eu só tenho vinte e dois anos. Não há pressa.
Sim, ela tinha vinte e dois, mas o fato de ter terminado a universidade tão cedo dava a impressão de que ela já era uma veterana. Pérola pensou, por um segundo, que talvez não devesse ter sido tão precoce nos estudos.
— Além disso, quem disse que eu não tenho amigos homens? E o Felipe?
A família Vasconcelos era outra linhagem tradicional de São Paulo e muito próxima dos Paes. Felipe Vasconcelos, o herdeiro, tinha a mesma idade de Pérola e eles cresceram juntos. Eram o que todos chamavam de amigos de infância.
Xênia deu um olhar de desdém para a filha: — Nem me fale daquele menino. Vocês se conhecem a vida inteira; se fosse para acontecer algo, já teria acontecido. Eu sou sua mãe, Pérola. Eu sei que você não sente nada por ele, não tente me enganar.
— Se você não sentir nada pelo Thiago, eu procuro outros para você conhecer. Você pode escolher com calma, até achar alguém que te agrade.
— Mas, sendo honesta, achar alguém melhor que o Thiago Steiner não vai ser fácil. Quando seu pai me falou dele, fiquei impressionada. Um jovem que começou a empreender sozinho no colégio e, em poucos anos, já lidera o mercado... Além de ser lindo e educado...
— Está bem, mãe. Vamos comer — interrompeu Pérola, colocando uma porção de legumes no prato de Xênia com um sorriso. — Pai, mãe, não se preocupem com isso. Eu sei o que estou fazendo.
Ao ouvir isso, os olhos de Xênia brilharam: — "Sabe o que está fazendo"? Isso significa que já tem alguém de quem gosta?
Paulo também parou de comer e a encarou com curiosidade. Apenas Pietro, dando um olhar de soslaio para a irmã, continuou seu jantar em silêncio.
"Gostar de alguém?", pensou o irmão. Se Pérola tinha algum interesse, certamente era o que ela demonstrara por Thiago ao fazer tantas perguntas escada abaixo. Para alguém com o temperamento dela, aquilo já era um sinal gritante de anormalidade.
— Pérola, deixe-me dizer: a nossa família não se importa com títulos ou linhagens, mas valorizamos muito o caráter. Se você tiver alguém, conte para mim. Eu posso te ajudar a avaliar o rapaz. Afinal, sua mãe já viveu o suficiente para ter um olho clínico para essas coisas — disse Xênia.
Xênia não era apenas uma matrona da sociedade; ela era uma pianista respeitada e com carreira própria. Ela tinha toda a autoridade para dizer que sabia julgar as pessoas. Na vida passada, a Pérola dessa idade era uma jovem protegida e ingênua, mas a Pérola de agora já vira o pior da humanidade.
— Se não confia em mim, conte para o seu pai. Ele lida com negócios há décadas, já viu de tudo. Ele sabe identificar um canalha a quilômetros de distância.
— Mãe, pare de especular. Eu não tenho ninguém especial — respondeu Pérola.
Ela hesitou por um segundo. Precisava de um motivo para frear o ímpeto dos pais em arranjarem novos encontros, ou ficaria exausta. Tomando coragem, ela mentiu: — Eu estive pensando sobre hoje e acho que o Thiago Steiner que vocês me apresentaram parece ser alguém interessante. Pretendo manter contato e ver no que dá.
Afinal, na vida passada, eles foram companheiros que confiariam a vida um ao outro. Usar o nome de Thiago como "escudo" agora não deveria deixá-lo bravo, pensou ela.
Depois eu compenso ele de alguma forma
, prometeu mentalmente.
Além disso, seu plano era se aproximar dele para protegê-lo das mulheres mal-intencionadas e "limpar" as pretendentes venenosas da vida dele. Usar esse pretexto com os pais agora facilitaria seus encontros futuros com ele sem precisar inventar novas desculpas.
— Sério? — Xênia perguntou, desconfiada.
O olhar de Paulo também carregava dúvida: — Pérola, você não está dizendo isso só para a gente parar de tocar no assunto, está? Não é um pretexto para nos enrolar?
Pérola sentiu uma pontada de culpa: — ... Claro que não. Estou falando sério. Realmente achei ele interessante e quero conhecê-lo melhor.
— Sendo assim, mais tarde eu te passo o número de telefone dele para que vocês possam conversar. Mas Pérola, eu e seu pai queremos deixar claro: não é uma obrigação. Se você perceber que não é para ser, esqueça isso — disse Xênia com uma seriedade incomum.
Eles realmente não queriam forçá-la. O medo era apenas que ela se fechasse para o mundo e vivesse uma vida solitária dedicada apenas à música.
— Eu sei — respondeu Pérola. Ela nunca duvidou do amor deles. Conseguir o número de Thiago era exatamente o que ela queria. — Pode me mandar o número por mensagem depois, mãe.
Com o número fornecido pela mãe, ela teria a desculpa perfeita para ligar para ele sem levantar suspeitas.
— Vou mandar agora mesmo! — disse Xênia, já pegando o celular.
Pérola sorriu. Ter sua família vibrante e viva ao seu redor era maravilhoso. De repente, uma sombra passou por seus olhos e ela estreitou o olhar: — Mãe, a senhora ainda mantém contato com a... Fabiana Vasconcelos?
Xênia, distraída enviando o número, respondeu sem pensar muito: — Sim, claro. Falamos ontem à noite. Ela disse que volta para o Brasil com o seu tio em alguns dias.
— Por que perguntou de repente? O Felipe te contou algo?
Fabiana Vasconcelos. A filha dos Vasconcelos... ou melhor, a filha ilegítima que fora reconhecida. A "tia" nominal de Felipe.
Pérola apertou os talheres com força. — Sim, ouvi o Felipe comentar por acaso outro dia que a tia dele estava voltando. Lembrei agora e quis confirmar.