Capítulo 002: Reencontrando meu Irmão
Pérola saiu do quarto e, ao se dirigir à escada, deu de cara com alguém saindo do cômodo ao lado.
Era um jovem vestindo roupas confortáveis de ficar em casa. Ele era bonito, com um semblante limpo e traços que guardavam uma forte semelhança com os de Pérola.
Ao ver Pérola ainda de camisola e com o rosto visivelmente abatido, o jovem perguntou apressadamente:
— Maninha, você não estava passando mal e dormindo? Por que levantou? Já está se sentindo melhor?
Percebendo que Pérola o encarava fixamente, ele achou que ela estava se perguntando como ele sabia do seu estado e acrescentou:
— Ah, a Dona Dulce me contou quando cheguei da escola.
Dona Dulce era uma funcionária antiga que trabalhava para a família Paes há mais de vinte anos; ela era a alma da cozinha da mansão.
Aquele jovem era o irmão biológico de Pérola, Pietro Paes.
Pietro tinha dezessete anos e cursava o último ano do ensino médio. Mesmo sendo o herdeiro da família mais influente de São Paulo, ele nunca se deixou levar pelo privilégio. Longe de ser um playboy mimado, ele era o tipo de filho que todos os pais invejavam.
Desde que começou a estudar, sempre foi o primeiro da classe, destacando-se em tudo: nos esportes, nas artes e na conduta. Além disso, era extremamente charmoso. Na escola, era tratado como um ídolo; entre os círculos de elite da cidade, era o padrão de perfeição usado pelos pais para cobrar seus próprios filhos.
O status da família Paes já era inquestionável, mas ter um casal de filhos tão brilhantes tornava a família o alvo constante de admiração e inveja em qualquer conversa na alta sociedade de São Paulo.
Pérola o encarava daquele jeito não porque quisesse perguntar algo, mas porque as lembranças da vida passada a atingiram como uma onda, mergulhando-a em uma emoção profunda da qual ela custava a emergir.
Na vida passada, daqui a apenas três meses, seu irmão Pietro morreria tragicamente ao cair de um prédio durante uma festa, falecendo no local.
Pérola ainda se lembrava do caos daquele evento. Ao receber a notícia, sua mãe, Xênia, desmaiou na hora; seu pai ficou pálido como um cadáver, e as mãos com as quais ele tentava amparar a esposa tremiam descontroladamente.
Naquele momento, ela também ficou em choque. Algum amigo a arrastou pelo braço até o elevador. Só ao chegar no térreo é que ela recuperou os sentidos e, como uma louca, abriu caminho pela multidão desesperada até ver Pietro caído em um mar de sangue.
Ela já não conseguia se lembrar de onde tirou forças para se aproximar e checar os sinais vitais dele. Só recordava o toque frio em seu pescoço... não havia mais pulso. No meio da gritaria, ouviu alguém chamando a ambulância. Depois disso, tudo era um borrão. Ela desmaiou.
Quando acordou, Pietro já se fora. Temendo que ela sofresse um novo colapso, a família nem permitiu que ela visse o corpo do irmão pela última vez. Mais tarde, o que restou foi apenas aquela foto em preto e branco no altar do funeral.
Mas o golpe final ainda estava por vir. Três dias após o enterro de Pietro, seus pais sofreram um acidente de carro simultâneo. Paulo morreu no local e Xênia faleceu após tentativas frustradas de ressuscitação.
Pérola, que dedicara a vida apenas à música e dominava diversos instrumentos, não entendia nada de gestão empresarial. Assim, a empresa da família caiu nas mãos dos inimigos.
Na época, a polícia concluiu que o acidente dos pais foi uma fatalidade. Inicialmente, ela também acreditou nisso; afinal, com a perda repentina do filho, o estado emocional deles era deplorável, o que tornava um erro ao volante algo provável.
Foi só muito tempo depois, quando ela mesma quase foi empurrada de um arranha-céu, que descobriu a verdade: o acidente dos pais e a queda de Pietro não foram acidentes!
Se Thiago não estivesse naquele prédio para uma reunião de negócios e não tivesse saído para atender o telefone bem na hora de salvá-la, ela teria tido o mesmo destino de Pietro. Ou pior: as pessoas pensariam que ela cometeu suicídio por não aguentar a perda da família.
Já que os céus lhe deram uma segunda chance, ela jamais permitiria que isso acontecesse de novo! E quanto àqueles que, com intenções perversas, destruíram seu lar... mesmo que ela já tivesse se vingado na vida passada, nesta vida ela faria questão de que eles pagassem cada centavo em dobro!
— Pé? O que foi? Está sentindo dor? Quer ir ao hospital?
A voz de Pietro a trouxe de volta à realidade. Ele já estava diante dela. Pérola tinha um metro e setenta, mas Pietro já era quase uma cabeça mais alto que ela. Ele estendeu a mão para tocar a testa dela e medir a temperatura.
Pérola levantou o braço e o bloqueou. — Eu estou bem.
Pietro tinha se assustado um pouco. Ele nunca vira sua irmã, sempre tão serena e elegante, com aquela expressão. O rosto estava pálido, mas o olhar era cortante, carregado de uma sede de sangue latente. A aura assassina que emanava dela naquele instante era o oposto da imagem de "donzela angelical" que ela sempre projetava.
Por um segundo, Pietro chegou a duvidar se aquela era realmente sua irmã.
— Foi só um pesadelo e a febre, estou um pouco tonta.
Felizmente, Pérola conseguiu se recompor rapidamente. Se não fosse por isso, a inteligência de Pietro o faria desconfiar.
— Quer ir ao hospital então? Ou prefere que eu chame o Dr. Carlos? — O Dr. Carlos era o médico da família Paes.
— Não precisa, a febre já baixou. Foi só o efeito do remédio e o sonho ruim, por isso pareço assim. Vou melhorar logo. — Pérola já estava totalmente sob controle, retomando sua postura de dama refinada com um sorriso gentil e discreto.
Se após tantos anos ela não conseguisse controlar as próprias emoções, os vinte e oito anos da vida anterior teriam sido em vão. Afinal, o apelido de "Viúva Negra" de São Paulo — fria, impiedosa e letal — não fora dado por acaso.
Pietro a observou atentamente. Só relaxou quando teve certeza de que ela não estava mentindo. — Tudo bem. Vamos descer, então. Vou pegar um copo de leite quente para você.
Apesar de ter relaxado, Pietro ainda sentia algo estranho em Pérola hoje, embora não conseguisse identificar exatamente o quê.
— Sim — Pérola assentiu.
— Então, Pé... você poderia soltar meu braço?
Só então Pérola percebeu que ainda segurava o pulso do irmão com uma força descomunal. Ela baixou o olhar para esconder a intensidade em seus olhos e soltou a mão lentamente.
— Desculpe. Eu ainda estou meio aérea, não percebi.
Ao olhar para o pulso que já estava ficando vermelho, Pietro achou aquilo ainda mais bizarro. — Sem problemas. Mas tem certeza de que está tudo certo?
Pérola ergueu o rosto e lhe deu um sorriso leve. — Absoluta. Vamos. Onde estão o papai e a mamãe?
Pietro não percebeu o esforço monumental que ela fez para pronunciar as palavras "papai e mamãe". Pérola escondeu sua agonia perfeitamente.
— Estão lá embaixo, me mandaram te chamar para o jantar. A Dona Dulce disse que você tomou remédio e estava dormindo; acho que a mamãe foi ao seu quarto agora pouco, mas como você parecia estar em um sono profundo, ela não quis te acordar.
— Entendi — respondeu Pérola.
Ela não disse mais nada. Fazia tantos anos que não sentia o cuidado e o carinho da família. Seu peito ardia de angústia, mas, ao mesmo tempo, sentia uma gratidão imensa. Graças a Deus, desta vez, tudo ainda podia ser evitado.
— Pé, como você ficou com febre do nada? Sua saúde sempre foi tão boa.
— Deve ter sido a mudança no tempo — ela pensou. Talvez fosse um castigo do destino por ela ter rejeitado o encontro com Thiago.
Thiago... ele não lhe devia nada. Ter salvado a vida dela na outra vez, considerando que mal se conheciam, já fora um ato de extrema generosidade. Mas ele fez mais: ele a treinou, deu a ela as ferramentas para que ela mesma pudesse se vingar. Depois, temendo que ela fizesse algo contra si mesma sozinha em São Paulo, ele a levou para o Rio de Janeiro e, no fim, deu a própria vida por ela.
E como se não bastasse, deixou todo o império Steiner nas mãos dela para garantir que ela estivesse protegida mesmo sem ele. Thiago parecia um homem implacável, mas era, no fundo, um "tolo" generoso. Parecia brilhante, mas era absurdamente ingênuo no que dizia respeito às mulheres.
Aquelas namoradas que ele teve... nenhuma tinha boas intenções. E ele nunca percebia! Na vida passada, se não fosse por Pérola vigiando cada passo dele, ele teria sido traído e enganado por inúmeras mulheres interessadas apenas em sua fortuna.
— Pé, ouvi dizer que o papai te levou para um encontro às cegas hoje? — Pietro perguntou de repente, enquanto desciam as escadas.