Capítulo 001: O Despertar de um Pesadelo
O entardecer se aproximava sob um céu carregado de nuvens pesadas, onde a chuva insistente se misturava ao clarão dos relâmpagos e ao estrondo dos trovões.
Em um quarto no terceiro andar de uma mansão luxuosa, as cortinas estavam semicerradas e a janela, entreaberta. A varanda era ampla o suficiente para que, mesmo com a fresta aberta, a chuva de São Paulo não alcançasse o interior.
Sobre uma cama de dossel em tons de rosa, repousava uma jovem. Ela estava mergulhada em um suor frio, com as sobrancelhas franzidas em uma expressão de agonia, claramente presa em um pesadelo.
Ela possuía um rosto de uma beleza refinada e estonteante, com uma pele alva e delicada, emoldurada por longos e sedosos cabelos negros que se espalhavam desordenadamente sobre o lençol. Naquele estado de vulnerabilidade, entre o suor e o tormento, ela parecia uma obra de arte tão bela quanto frágil.
— Thiago! — De repente, ela se sentou num sobressalto, gritando aquele nome.
O grito não foi estrondoso, mas carregava uma dor lancinante, capaz de partir o coração de quem ouvisse.
Pérola ainda não havia se recuperado totalmente do pesadelo. Seus olhos transbordavam uma mistura caótica de emoções: tristeza, saudade, solidão e confusão. No entanto, esse estado durou pouco. Em cerca de trinta segundos, toda a fragilidade desapareceu, dando lugar a um olhar gélido e implacável.
Aquele rosto angelical, agora endurecido por uma expressão severa, perdeu qualquer traço de inocência. Em vez disso, exalava uma autoridade silenciosa, típica de quem ocupou o topo da hierarquia por muito tempo.
Quando seus olhos afiados finalmente processaram o ambiente ao redor, suas pupilas se contraíram.
Onde ela estava?
Era fim de tarde e a penumbra dominava o quarto, já que as luzes estavam apagadas. Apenas os flashes ocasionais dos relâmpagos permitiam vislumbrar a decoração.
A escrivaninha, o sofá, a cama e até as cortinas... tudo era de um tom rosa suave.
Em sua memória, ter um quarto daquela cor era algo que pertencia a um passado muito distante. No restante de sua vida, ela se cercou apenas de tons sóbrios, preto e branco.
Rosa... uma cor tão vibrante e cheia de vida.
Este era... seu antigo quarto?
Quão antigo? Provavelmente de antes dos seus vinte e dois anos.
Então, ela... tinha voltado?
Qual era a sua última lembrança? Ah, sim. Ela havia falecido. Após governar sozinha por vinte anos o império da família Steiner deixado por Thiago, seu corpo finalmente cedeu.
E agora, ela estava em sua própria casa?
Pérola acendeu o abajur, trazendo um pouco de claridade, e saiu da cama. Em seguida, acendeu todas as luzes do quarto, revelando cada detalhe do ambiente.
Caminhou até a escrivaninha e pegou o celular. Ao conferir a data na tela, sua mão apertou o aparelho com força.
Ela realmente tinha voltado!
De volta aos vinte e dois anos, quando a família Paes ainda estava no auge, seus pais e irmão estavam vivos, e este era o ano em que ela conheceu Thiago!
Essa data...
Pérola fixou o olhar na tela, atônita. Essa era exatamente a data do seu encontro às cegas com Thiago!
Na verdade, ela não se lembrava da data com tanta precisão originalmente. Foi anos depois, em conversas com Thiago na vida passada, que ele mencionou esse dia casualmente, e ela guardou a informação no coração.
Seu pai, Paulo, havia dito que conhecera um jovem talento excepcional e queria apresentá-lo a ela. Ela concordou, pensando ser apenas uma introdução social, sem saber que se tratava de um jantar de noivado arranjado.
Como a primogênita da família mais poderosa de São Paulo, criada com todos os privilégios e já sendo uma musicista de renome nacional, Pérola tinha seu orgulho e ideias independentes. Ela não aceitava que seu casamento fosse decidido por terceiros.
Por isso, ela recusou o encontro.
Naquele dia, após a recusa, ela teve uma febre alta e adormeceu após tomar remédios. Acabara de acordar.
Thiago ainda estava lá! Ele estava vivo e bem! Não tinha morrido para salvá-la! Seus pais estavam seguros, e a família Paes ainda estava intacta!
Ao pensar nisso, os olhos de Pérola se encheram de lágrimas. Com as mãos trêmulas, ela abriu o discador do celular e digitou uma sequência de números que sabia de cor. Hesitou por um segundo, mas acabou completando a chamada.
Após dois toques, alguém atendeu.
— Alô? — Uma voz masculina, grave e límpida, ressoou do outro lado.
Era a voz que ela conhecia tão bem.
Thi.
Seus lábios rubros tremeram, mas ela não conseguiu pronunciar o nome. Como alguém que comandou a poderosa família Steiner por duas décadas, ela possuía racionalidade de sobra.
Neste momento, eles recém se conheciam. Oficialmente, eles nem tinham o número um do outro; eram estranhos. Se ela o chamasse de forma tão íntima agora, ele certamente perceberia que algo estava errado. O passado sombrio era um fardo que só ela precisava carregar.
Diante do silêncio dela, ele perguntou novamente: — Quem fala? — O tom era frio, com um toque de arrogância rebelde, exatamente como ela se lembrava.
Pérola desligou o telefone. Saber que ele estava bem era o suficiente para acalmar seu coração. Nos vinte anos sem ele, quase todas as noites ela tinha o mesmo pesadelo: ele morrendo nas mãos de inimigos para protegê-la.
Ela fechou os olhos, respirou fundo e, ao abri-los novamente, toda a emoção estava escondida. Deixou o celular, foi ao banheiro lavar o rosto e finalmente abriu a porta do quarto.
Em um clube exclusivo de alto padrão em São Paulo, em uma das suítes VIP, o ambiente que deveria estar barulhento estava em absoluto silêncio. A música havia sido interrompida e ninguém ousava dar um pio.
Tudo porque o celular de um certo homem havia tocado. Com apenas um olhar, ele fez com que todos se calassem.
Diferente dos outros homens na sala, que estavam acompanhados por mulheres, ele estava sozinho. Possuía um rosto de beleza aristocrática e olhos que carregavam um brilho enigmático e perigoso, conferindo-lhe uma aura de nobreza rebelde.
Thiago segurava o celular. O visor mostrava um número desconhecido, sem nome gravado. Um número estranho.
No entanto, ele paralisou por um instante. Sua postura relaxada deu lugar a um corpo tenso. Fez um sinal para o homem ao lado, que prontamente desligou a música e ordenou silêncio aos demais.
— Alô? — O tom de Thiago era calmo, mas seus músculos estavam retesados.
Não houve resposta do outro lado. Após hesitar, perguntou: — Quem fala?
Ainda silêncio. E então, a ligação caiu.
Thiago baixou o celular e encarou a tela por alguns instantes antes de baixar as pálpebras, escondendo seus pensamentos. Como ele permaneceu em silêncio por muito tempo, a tensão na sala aumentou.
Finalmente, o homem ao seu lado, o mesmo que desligara a música, perguntou: — Thiago, está tudo bem?
Ele não perguntou quem era, apesar da curiosidade latente.
— Tudo bem — respondeu Thiago, guardando o aparelho e se levantando. — Estou indo.
O outro ficou surpreso. — Mas eu organizei essa festa para você! Começou faz cinco minutos e você já vai? — Ele se levantou para segui-lo.
Alguém no fundo gritou: — Senhor Oliveira, o Senhor Steiner... está bem? — Não era preocupação real, eles não tinham esse nível de intimidade, mas temiam ter ofendido o homem sem querer.
— Deve estar. Vou atrás dele. Continuem a festa, a conta é por minha conta hoje à noite.
Aquele era Zeca Oliveira, herdeiro da família Oliveira de São Paulo, que geria uma empresa de cosméticos herdada da mãe. Embora os Oliveira não tivessem o mesmo status que os Paes, ainda eram uma família influente. Zeca e Thiago eram amigos desde o ensino médio e ele era a pessoa mais próxima de Thiago na cidade.
Zeca alcançou Thiago na saída do clube. A chuva estava parando, mas os poucos pedestres na rua ainda usavam guarda-chuvas. Thiago era a exceção. Ele caminhava sem rumo pela calçada, deixando Zeca confuso.
— Thiago, aconteceu algo? — Zeca perguntou, cobrindo a cabeça com as mãos para se proteger das gotas remanescentes. Em oito anos de amizade, ele nunca vira Thiago tão... desorientado.
Thiago não respondeu. Seus passos não eram rápidos, mas Zeca precisava quase correr para acompanhá-lo.
— Olha, eu sei que o encontro de hoje não deu certo e você está frustrado. Por isso fiz a festa, para você relaxar. Esqueça isso, cara. O mar está cheio de peixes, por que se prender a uma única flor?
— Bem, nem dá para chamar de "prender", você nem conhecia a senhorita Paes antes de hoje, certo? Se não a conhecia, não pode estar apaixonado.
Thiago parou por um segundo, mas logo voltou a caminhar, sem dizer uma palavra.
— Mas admito que aquela garota é impressionante — continuou Zeca. — Rica, linda, elegante e talentosa demais. Vinte e dois anos e já é uma musicista de renome, membro da Associação Internacional de Música, solista da Starry Orchestra... Ela ganhou prêmios nacionais aos treze, se formou cedo na Academia de Música do Rio, discípula direta da mestre de harpa... Uma verdadeira princesa da elite.
— Só não entendi por que você aceitou esse encontro arranjado pelo pai dela. Não combina com seu estilo. Mas o velho Paes tem olho clínico: viu que você, apesar de não vir de uma família tradicional, é um talento raro e quis te dar a joia da coroa dele.
— Aquela Pérola Paes... ela é o exemplo de etiqueta, mas não me parece o tipo de mulher que aceita que os pais escolham seu marido. O encontro falhou, e daí? Não se sinta humilhado. Você começou do zero aos dezessete e criou um império no entretenimento. Quantos no mundo fazem isso?
— Além disso, o que não falta é mulher querendo você. Não duvide do seu charme só porque uma herdeira disse não...
Thiago interrompeu a caminhada e olhou de soslaio para o amigo, com voz sombria: — Quem disse que eu fui rejeitado?
Zeca paralisou. — Você não foi? Você chegou hoje ao meio-dia parecendo que tinha levado um soco no estômago. Eu achei que... Bem, eu não disse que você não é bom o suficiente, é que a Pérola realmente não parece do tipo que aceita casamentos arranjados.
Zeca não estava mentindo. Thiago era extraordinário. Chegou a São Paulo aos dezessete, terminou a escola e fundou a Fênix Entretenimento. Em oito anos, sua empresa já dominava metade do mercado artístico brasileiro. E fisicamente, ele não perdia para nenhum galã de cinema.
— Thiago, se você realmente quer se unir aos Paes, meu conselho é: esqueça o contrato e vá atrás dela de verdade. Conquiste-a antes que ela arranje outro namorado.
Thiago permaneceu inexpressivo. Zeca, vendo a falta de reação, bateu na própria testa. — Esquece, o que eu estou pensando? Você nunca correria atrás de ninguém. E você mal conhece a garota, não teria motivo para mudar sua personalidade por ela agora.
Thiago deu um olhar para Zeca que parecia questionar a inteligência do amigo, caminhou até o estacionamento, entrou no carro e partiu.
Zeca, captando o insulto silencioso: — ...
Ele estava irritado! Melhor deixá-lo ir. Cada um para sua casa!