Naquela tarde, logo após o meu cochilo, a enfermeira me ajudava a caminhar lentamente pelo quarto.
Arthur estava no pequeno escritório ao lado tratando de negócios.
A porta do quarto estava apenas encostada.
De repente, uma figura ao mesmo tempo familiar e estranha apareceu à porta. Era uma mulher que parecia exausta e envelhecida.
Tinha cabelos grisalhos, vestia roupas velhas e desbotadas, e o rosto estava marcado pelas dificuldades da vida.
O olhar dela era covarde e esquivo, e trazia nas mãos uma rede de plástico gasta com algumas maçãs dentro.
Levei um segundo para reconhecer quem era.
Tratava-se da minha mãe apenas no nome, a matriarca da família Wen: Dona Lurdes.
Desde que me casei com Arthur, nunca mais tínhamos nos falado.
Não era por falta de sentimento da minha parte, mas porque, no passado, eles tentaram me vender por duzentos mil reais de dote para um homem de quarenta anos, divorciado e agressivo.
Se eu não tivesse resistido com todas as minhas forças e encontrado Arthur por acaso, minha vida já estaria arruinada.
Mais tarde, Arthur quitou as dívidas da família e ainda lhes deu uma quantia extra, como se estivesse comprando a minha liberdade como filha.
A partir dali, cortamos qualquer contato. Eu não esperava que ela aparecesse aqui de repente.
— Alicinha... — Dona Lurdes me viu e seus olhos brilharam, chamando-me com cautela. A voz dela carregava um misto de bajulação e culpa.
Não respondi, apenas a encarei friamente. Percebendo a situação, a enfermeira deu um passo à frente e a barrou.
— Senhora, quem a senhora procura?
— Eu... eu procuro minha filha, Alice — disse Dona Lurdes apressadamente.
— Sinto muito, a nossa patroa está descansando e não pode receber visitas — respondeu a enfermeira de forma educada, mas distante.
— Eu não sou visita, sou a mãe dela! — Dona Lurdes se alterou e a voz subiu de tom. Ela tentou forçar a entrada, mas a enfermeira a segurou firmemente. — Deixe-me entrar! Quero ver minha filha! Alice! Alicinha! É a mamãe!
A gritaria chamou a atenção de Arthur no escritório. Ele saiu de cenho franzido.
— O que está acontecendo? — Quando viu Dona Lurdes à porta, um brilho de óbvia aversão passou por seus olhos. — Como você encontrou este lugar? — A voz dele era fria como gelo.
Ao ver Arthur, Dona Lurdes murchou instantaneamente, como um rato diante de um gato. Ela baixou a cabeça, sem coragem de encará-lo.
— Eu... ouvi dizer que a Alicinha estava internada e... vim visitá-la.
— Visitar? — Arthur soltou uma risada sarcástica. — Por que sinto que você não veio com boas intenções?
O rosto de Dona Lurdes alternou entre o vermelho e o branco.
— Eu realmente vim ver minha filha — ela estendeu a rede de plástico. — Veja, até trouxe maçãs para ela.
Arthur nem sequer olhou.
— Não faltam maçãs na família Cavalcanti. Diga logo, o que você quer de verdade? Acabou o dinheiro ou o seu filho precioso se meteu em confusão de novo?
Arthur foi direto ao ponto, desmascarando as intenções dela. A expressão de Dona Lurdes ficou ainda mais feia. Ela hesitou por um longo tempo antes de balbuciar:
— É... é sobre o Hugo...
Meu irmão, Hugo, fora mimado pela família desde pequeno. Não queria saber de estudos e vivia se metendo em encrenca.
Há alguns anos, ele contraiu uma dívida enorme por causa de jogo. Foi Arthur quem pagou tudo. Não imaginei que, em tão pouco tempo, ele teria recaído.
— Ele... deve dinheiro na rua de novo — a voz de Dona Lurdes era quase um sussurro.
— Quanto ele deve desta vez? — perguntou Arthur, visivelmente impaciente.
— Quinhentos... quinhentos mil...
— Quinhentos mil? — Arthur começou a rir com escárnio.
— Dona Lurdes, você acha que o dinheiro dos Cavalcanti nasce em árvore? Da última vez, em consideração à Alice, eu já ajudei vocês. O dinheiro que dei era suficiente para vocês viverem o resto da vida sem preocupações. Vocês é que não souberam valorizar e transformaram o seu filho nesse desocupado. Agora ainda têm a cara de pau de vir nos procurar?
Dona Lurdes nem conseguia levantar a cabeça.
— Genro, eu sei que erramos... mas desta vez é diferente...
— De repente, ela se ajoelhou no chão com um baque.
— Os agiotas disseram que, se ele não pagar em três dias, vão... vão cortar uma mão do Hugo! Ele é o meu único filho! Se algo acontecer com ele, a linhagem dos Wen acaba aqui!
Ela chorava copiosamente, em um estado deplorável. Olhei para ela com frieza, sem sentir nada.
Se soubessem que este dia chegaria, por que agiram assim no passado?
Se tivessem educado Hugo em vez de apenas mimá-lo, não estariam nesta situação.
— Genro, eu imploro, ajude-nos só mais esta vez! Faço qualquer coisa se você salvar o Hugo! Alice, Alicinha, ajude sua mãe a convencê-lo!
— Vendo que implorar para Arthur não funcionava, ela se voltou para mim.
— O Hugo é seu irmão de sangue! Você tem coragem de vê-lo perder uma mão? Você agora é a senhora Cavalcanti, quinhentos mil para você não é nada! Tenha piedade de nós, por favor!
Os gritos dela me soavam terrivelmente irônicos. Irmão de sangue?
Quando eles tentaram me forçar a casar com aquele homem agressivo, ele me tratou como irmã?
Quando a família inteira me acusava, ele disse uma palavra em minha defesa?
Não.
Ele apenas observava com satisfação, ansioso para que eu fosse logo embora para que ele pudesse aproveitar o dinheiro do dote.
Agora que está em apuros, ele se lembra que tem uma irmã?
Que piada.
Apoiei a mão na barriga e caminhei lentamente até a porta.
Olhei de cima para baixo para a mulher ajoelhada.
— Por que eu deveria te ajudar? — Minha voz era gélida.
— No passado, vocês me venderam por duzentos mil. Agora, o seu filho precioso deve quinhentos mil e você quer me vender de novo? Dona Lurdes, você acha que eu sou idiota para ser usada por vocês para sempre?
Dona Lurdes ficou sem palavras, olhando para mim como se não me reconhecesse.
Na memória dela, eu era a filha fraca, submissa e que não ousava resistir.
Ela não esperava que a Alice de hoje fosse tão incisiva e indiferente.
— Alicinha, como você pode falar assim? — ela murmurou. — Eu sou sua mãe...
— Eu não tenho uma mãe como você — interrompi bruscamente.
— Desde o momento em que decidiram me vender, eu, Alice, cortei qualquer laço com a família Wen. Quanto à vida ou morte do Hugo, o que isso tem a ver comigo?
— Você! — Dona Lurdes tremia de raiva.
— Sua filha ingrata! Eu te criei para nada! Eu te aviso: se você não salvar o Hugo, eu... eu vou à justiça contra você! Vou te processar por abandono! Vou aos jornais, à televisão, contar para todo mundo que você, Alice, é uma pessoa fria, sem coração e que renega a própria família! Quero ver como você vai continuar sendo a senhora Cavalcanti depois disso!
Ela começou a fazer um escândalo, revelando sua face mais feia.
O rosto de Arthur escureceu completamente.
Ele deu um passo à frente, colocando-me atrás dele.
— Parece que a lição que te dei da última vez não foi suficiente — a voz dele parecia vir das profundezas do inferno.
— Vou te dar uma última chance.
Pegue suas coisas e suma da minha frente agora.
Caso contrário, não me importo em fazer você e o seu filho precioso se "reunirem" na cadeia.