Quando o telefone tocou, Arthur e eu estávamos jantando. A mesa estava silenciosa, com apenas o som suave dos talheres batendo nos pratos.
Arthur olhou para o identificador de chamadas; era um número internacional desconhecido. Sua mão tremeu de forma quase imperceptível.
Ele pousou os talheres, limpou a boca com o guardanapo e se levantou.
"Vou atender no escritório".
Sua voz estava calma, mas eu podia sentir que, por baixo daquela serenidade, suprimia uma tempestade.
Observei-o entrar no escritório e fechar a porta. Meu coração também subiu à boca. Era o centro de pesquisa genética ligando.
O julgamento final estava chegando.
Não consegui comer mais nada, apenas fixei o olhar naquela porta fechada. O tempo passava segundo a segundo.
Cada segundo parecia um corte no meu coração. Não sei quanto tempo se passou, talvez dez minutos, talvez um século. Finalmente, a porta do escritório se abriu.
Arthur saiu de lá. Seu rosto não tinha expressão alguma. Não dava para saber se era alegria ou tristeza.
Ele ficou parado ali, olhando para mim de longe através da longa sala de jantar.
Seu olhar era profundo e complexo, algo que eu não conseguia entender. Meu coração foi afundando pouco a pouco. Acabou. A última esperança havia morrido. Meu corpo vacilou, quase caí da cadeira.
Nesse momento, Arthur se moveu subitamente. Ele caminhou em minha direção com passos firmes, mas com uma urgência indescritível. Parou diante de mim sem dizer nada.
Apenas se curvou e me pegou abruptamente nos braços. Soltei um grito de surpresa e, instintivamente, enlacei seu pescoço.
"Arthur, você...". Ele não me respondeu, apenas me carregou rapidamente para fora da sala de jantar. Ao passar pela sala de estar, Dona Helena e o Sr. Augusto, que assistiam TV, ficaram estáticos.
"Arthur, o que está fazendo?" Dona Helena se levantou. Arthur não olhou para trás nem diminuiu o passo.
"Vou levar a Alice para descansar no quarto".
Sua voz carregava algo estranho e reprimido. Aninhada em seu peito, eu podia ouvir as batidas de seu coração como um tambor.
Estava assustadoramente rápido. Ele me carregou escada acima e entramos no quarto. Então, fechou a porta com o pé e me colocou suavemente na cama.
Ele não se afastou, mas se inclinou com as mãos apoiadas em ambos os lados do meu corpo, cercando-me em seus braços.
Estávamos muito próximos. Eu via claramente meu reflexo em seus olhos profundos. Naqueles belos olhos negros, queimavam agora duas chamas que eu nunca vira antes.
Chamas que pareciam querer me devorar.
"Arthur?" comecei, inquieta.
"O resultado... saiu?".
Ele não respondeu à minha pergunta. Apenas usou um olhar quase voraz para traçar cada detalhe do meu rosto, das sobrancelhas aos olhos, ao nariz, pousando finalmente nos meus lábios trêmulos.
Então, baixou a cabeça subitamente e me beijou com força.
Esse beijo foi diferente de todos os seus beijos anteriores. Não havia doçura ou ternura, mas sim selvageria, dominância e uma loucura de quem recupera algo perdido.
Ele era como uma fera faminta, saqueando furiosamente o ar dos meus pulmões. Fiquei quase sufocada, com a mente em branco.
Não sei quanto tempo passou até que ele se afastasse um pouco, encostando a testa na minha, respirando pesadamente. Seus olhos brilhavam intensamente.
"Alicinha". Sua voz estava incrivelmente rouca. "Diga de novo".
"Dizer o quê?" eu ainda não tinha reagido.
"Diga que me ama".
Ele me encarava fixamente, com uma ponta de vulnerabilidade incerta no olhar. Ver esse estado dele me entristeceu. Levei a mão ao seu rosto bonito.
"Eu te amo, Arthur Cavalcanti. Desde muito tempo atrás até agora, só amei você".
Assim que terminei de falar, os olhos dele ficaram vermelhos instantaneamente.
Uma gota de líquido quente caiu em minha bochecha.
Fiquei atônita.
Ele estava... chorando?.
Aquele Arthur, sempre frio, contido e imperturbável, estava chorando?.
"Arthur, o que aconteceu?" entrei em pânico.
"O resultado foi muito ruim?".
"Não".
Ele balançou a cabeça, mas os cantos da boca se curvaram em um sorriso incontrolável.
Ele sorriu, um sorriso radiante como o sol derretendo o inverno inteiro.
Escondeu o rosto no meu pescoço, como uma criança que ganha um doce.
Sua voz carregava uma alegria e um tremor irreprimíveis.
"Alicinha, nós vamos ter um filho. Nós vamos ter nosso próprio filho!".
Fiquei paralisada, sem entender o que ele queria dizer.
Como assim... ter um filho?.
Ele levantou a cabeça, segurou meu rosto e me deu beijo após beijo nos lábios.
"O relatório saiu! Meus genes não têm problema! Eu não sou doente!".
"O diagnóstico de anos atrás estava errado! Foi um erro médico total!".
"Minha saúde é perfeita, mais saudável do que qualquer um! O médico disse... disse que a atividade e a quantidade dos meus espermatozoides superam em muito os níveis normais, por isso... por isso...".
Por isso engravidei de trigêmeos de uma só vez.
Ele não terminou a frase, mas eu entendi.
Meu cérebro, após travar por meio minuto, finalmente voltou a funcionar.
O que ele disse?
O diagnóstico de anos atrás estava errado?
Ele não era doente?
O bebê no meu ventre... era dele?
Era realmente dele?.
Esse conhecimento explodiu na minha mente como um trovão.
Olhei para ele incrédula, com os lábios tremendo.
"Você... o que está dizendo é verdade?".
"Verdade!" ele assentiu com força, a alegria transbordando dos olhos.
"Absolutamente verdade!".
"Alicinha, nós vamos ser papai e mamãe! Vamos ter três bebês!".
Ele falava de forma desconexa, animado como uma criança.
Minhas lágrimas jorraram de repente.
Desta vez não era mágoa ou medo, era alegria, uma alegria avassaladora. Sentei-me bruscamente e o abracei com força.
"Que bom... que bom...".
Eu não sabia o que dizer, apenas repetia essas palavras.
Nós dois ficamos ali como dois bobos, abraçados, chorando e rindo ao mesmo tempo.
Toda a mágoa, pressão e sofrimento daqueles dias desapareceram naquele instante.
Após as emoções se acalmarem, uma dúvida enorme surgiu na minha mente.
"Arthur, o que aconteceu com aquele diagnóstico de anos atrás? Por que estava errado?".
Ao mencionar isso, a alegria nos olhos de Arthur esfriou instantaneamente, substituída por uma frieza abissal.
"Eu também quero saber".
Ele pegou o celular e discou um número.
"Ricardo".
"Investigue uma pessoa para mim".
"Dr. Marcos, que há três anos era o médico-chefe do setor de reprodução do Hospital Santa Luzia e depois emigrou para o exterior".
"Quero saber quem o fez emitir aquele laudo falso para mim naquela época".
"Vou fazer essa pessoa pagar o preço".