O relatório do exame pré-nupcial estava ali, em preto no branco, sem margem para dúvidas.
O médico falou com um tom que soava quase como uma sentença de morte, dirigindo-se a mim e à minha futura sogra, Dona Helena.
"O caso do Sr. Arthur é de azoospermia congênita."
"De um ponto de vista médico, a probabilidade de uma concepção natural é zero."
Naquele instante, vi claramente como o brilho nos olhos de Dona Helena — sempre tão elegante e impecavelmente maquiada — se apagou de repente.
Ela apertou minha mão com força. Sua palma estava gelada e tremia levemente.
Ao sairmos do consultório, seus olhos estavam marejados. Ela me puxou pela mão, com a voz embargada pelo choro.
"Alicinha, nossa família não merece você."
"O Arthur... esse menino é um azarado."
"Se você quiser desistir agora, eu jamais vou te culpar. Podemos cancelar o noivado aqui mesmo, e os Cavalcanti garantirão que você receba uma compensação generosa."
Olhei para o sofrimento em seus olhos e logo me veio à mente o rosto de Arthur — aquele rosto que sempre parecia frio e indiferente, mas que derretia como neve ao sol toda vez que olhava para mim.
Ele era o herdeiro de ouro, o único filho do magnata Augusto Cavalcanti e o sucessor legítimo do Grupo Cavalcanti.
Ele tinha tudo, exceto o direito de ser pai.
Confesso que meu coração amoleceu.
Ou melhor, desde o momento em que me apaixonei por ele, ter ou não ter filhos já não era um fator decisivo na minha escolha.
Retribui o aperto de mão de Dona Helena e disse, em um tom suave, mas firme: "Dona Helena, eu amo o Arthur pelo que ele é, o resto não importa."
"Eu vou me casar."
O casamento foi de uma grandiosidade sem precedentes.
Todos em São Paulo tinham inveja de mim. Uma garota de origem simples que, do dia para a noite, alcançou o topo ao se casar com o homem dos sonhos de todas as mulheres da cidade: Arthur Cavalcanti.
Apenas eu sabia o segredo doloroso que se escondia por trás daquela cerimônia luxuosa.
A vida após o casamento era tranquila e doce.
Arthur me mimava até o último detalhe.
Ele se lembrava de cada preferência que eu mencionava casualmente.
Durante meus ciclos menstruais, ele aprendia, do seu jeito desajeitado, a preparar chás quentes para aliviar minhas cólicas.
No meio da noite, se eu me chutasse as cobertas, ele as ajeitava repetidas vezes ao meu redor.
Quanto melhor ele me tratava, mais meu coração doía por ele.
Muitas vezes, à noite, eu observava seu rosto bonito enquanto ele dormia e não conseguia deixar de pensar no quão maravilhoso seria se ele pudesse ter um filho próprio.
Ele certamente seria o melhor pai do mundo.
Mas eu logo sufocava esse pensamento. Era como cravar uma faca no peito dele; eu jamais poderia tocar nesse assunto.
Vivíamos como um casal comum que havia optado por não ter filhos, aproveitando a doçura do nosso mundo a dois.
Até que, faltando pouco para completarmos três meses de casados, meu corpo começou a dar sinais estranhos.
No começo, era apenas uma sonolência excessiva e uma aversão repentina a comidas gordurosas.
Achei que fosse apenas um resfriado por causa da mudança de tempo.
Arthur, porém, ficou mais tenso do que eu. Ele pedia à cozinha que preparasse pratos leves e apetitosos todos os dias.
Até que, naquela manhã, ao sentir o perfume amadeirado de cedro que ele usava, meu estômago deu uma volta completa.
Corri para o banheiro e vomitei até não sobrar nada.
Arthur veio logo atrás, dando tapinhas leves nas minhas costas, com o cenho franzido de preocupação.
"Alicinha, você não está nada bem."
"Vou pedir para o Ricardo agendar um hospital. Vamos fazer um check-up esta tarde."
Enxaguei a boca e me apoiei em seus braços, exausta, concordando com a cabeça.
À tarde, escoltada pelo motorista da família, cheguei ao melhor hospital particular da cidade.
Arthur não pôde vir por causa de uma reunião internacional de última hora, mas as ligações dele não paravam; ele repetia que eu não devia ter medo, que ele cuidaria de tudo.
Desliguei o telefone com o coração aquecido.
Sentada na sala de espera da ginecologia, eu até sorria pensando que era apenas uma gastrite e que ele estava exagerando.
Quando chegou minha vez, entrei.
Uma médica gentil me recebeu e, após ouvir meus sintomas, deu um sorriso discreto.
"Sra. Cavalcanti, há quanto tempo a senhora e o Sr. Arthur estão casados?"
Fiquei confusa, mas respondi honestamente: "Quase três meses."
"E quando foi o seu último ciclo?"
Tentei recordar com cuidado e meu rosto mudou de cor instantaneamente.
Parecia que... estava atrasado há quase quinze dias.
Meu coração saltou uma batida.
Um pensamento absurdo e impossível surgiu do nada na minha mente.
A médica olhou para a minha expressão e sorriu com compreensão.
"Pelo visto, você já suspeita."
"Vamos fazer um ultrassom para confirmar. Vou preparar a guia."
Segurei aquela guia de exame com as mãos suando frio.
Impossível. Absolutamente impossível.
A médica deve estar enganada.
O Arthur... ele...
Deitei na maca da sala de ultrassom sentindo como se meu sangue estivesse congelando.
O transdutor gelado deslizou pelo meu abdômen.
A jovem técnica de ultrassom fixou os olhos na tela e soltou um "Ué?".
Meu coração subiu à garganta.
"O que foi, doutora? Tem algo... algo de errado?"
Ela não me respondeu. Em vez disso, virou-se para a assistente: "Rápido, chame a Dra. Regina agora!"
Minha cabeça latejou. Parecia que ia explodir.
Acabou.
Deve ser uma doença incurável.
Minha vida mal começou a ser feliz e já vai terminar assim?
Logo, uma médica mais velha e experiente entrou na sala; era a Dra. Regina, que havia me atendido antes.
Ela pegou o transdutor e começou a operar o equipamento, com os olhos fixos na tela.
O tempo passava segundo a segundo, cada um parecendo um século.
Eu estava prestes a entrar em colapso por não conseguir respirar.
Justo quando eu ia desabar, a Dra. Regina de repente começou a rir.
Era uma risada cheia de surpresa e alegria.
Ela se virou para mim, olhando-me como se eu fosse um tesouro raro.
"Meus parabéns, Sra. Cavalcanti!"
"Isso não é doença nenhuma, é uma notícia maravilhosa!"
Minha mente deu um branco. Eu não conseguia entender o que ela queria dizer.
A voz da Dra. Regina subiu várias oitavas de pura empolgação.
"Você está grávida!"
"E tem mais..."
Ela apontou para a tela, para aqueles pontinhos pretos que eu não entendia, com a voz tremendo de emoção.
"São trigêmeos! Os três sacos gestacionais estão se desenvolvendo perfeitamente!"
Senti como se tivesse sido atingida por um raio.
Fiquei estática na maca, incapaz de me mover.
Grávida?
Trigêmeos?
Como isso é possível?!
Este não pode ser o meu exame. Deve haver algum erro!
Meu mundo começou a girar, e apenas a frase da médica — "Parabéns! Trigêmeos!" — ecoava em um looping infinito nos meus ouvidos.
Nesse exato momento, meu celular começou a tocar loucamente.
Era Arthur.
Como se estivesse agarrando uma tábua de salvação, atendi com as mãos trêmulas.
Do outro lado, ele acabara de sair da reunião, com a voz carregada de um cansaço quase imperceptível.
"Alicinha, os resultados saíram? O que o médico disse?"
Abri a boca, mas não consegui emitir um único som.
Meu silêncio fez Arthur perceber que algo estava errado.
O tom de voz dele esfriou instantaneamente, assumindo uma calma assustadora.
"Em qual hospital você está?"
"Estou indo para aí agora."
Olhei para os três pontinhos pretos nitidamente visíveis no ultrassom. Minhas mãos estavam ensopadas de suor frio.
O suor escorria pelas minhas têmporas.
Eu estava perdida.