Na sala de visitas da delegacia, os olhos de Aline se encheram de lágrimas assim que ela viu Vitor.
Apertando as pontas de sua roupa desbotada, ela disse com a voz embargada: "Vitor, eu juro que não te atropelei! Naquela noite, te vi caído na beira da estrada, coberto de sangue, e fui eu quem te salvou!".
Erguendo os olhos marejados, ela olhou para ele com súplica: "Fiquei com tanto medo de ser deportada que não tive coragem de te levar ao hospital... Eu sei que errei, mas eu realmente não tive escolha...".
Vitor a observava em silêncio. Durante aquele mês, fora essa mulher quem o acolhera quando ele não tinha memória.
Naquele barraco que deixava entrar vento e chuva na favela, eles haviam lutado juntos pela sobrevivência.
"Tudo o que passamos este mês foi mentira?", Aline perguntou, chorando e olhando para ele de forma lamentável.
"Foi mentira que deixei de comer para te alimentar? Naquela noite em que você teve febre e saí sob chuva pesada para comprar remédio, nada disso foi real?".
Ao olhar para o rosto exausto dela e lembrar-se do calor mútuo nas madrugadas frias e da ternura de dividir um pedaço de pão, o coração de Vitor amoleceu.
Aqueles pequenos detalhes começaram a surgir um a um em sua mente.
"Não se preocupe, eu vou pagar sua fiança", ele finalmente decidiu.
Nesse exato momento, no corredor do lado de fora da sala de visitas, Larissa Queiroz se virou silenciosamente.
Ela viera originalmente para levar Vitor para casa, mas não esperava presenciar tal cena.
Através da vidraça, ver Vitor ser tão gentil com aquela mulher desconhecida foi como uma facada em seu coração.
Ela se afastou em silêncio, murcha como uma folha seca caindo sem som ao vento.
Vitor, sem perceber o desaparecimento dela, foi direto para o apartamento.
Aquele imóvel lhe parecia familiar e estranho ao mesmo tempo; cada canto sugeria um passado do qual ele não conseguia se lembrar.
Ao entrar no quarto, encontrou um porta-retrato delicado sobre o criado-mudo.
Na foto, ele abraçava por trás uma mulher com um sorriso radiante.
Ambos calçavam patins, sorrindo um para o outro em um rinque de gelo imaculado.
Seu queixo descansava levemente sobre a cabeça dela, que inclinava o rosto com os olhos cheios de brilho.
Vitor passou os dedos suavemente sobre os rostos felizes na foto e, ao virar o porta-retrato, encontrou uma caligrafia elegante:
"Para o meu melhor parceiro, que possamos dançar no gelo para sempre. — Larissa".
Naquele instante, inúmeros fragmentos de memória avançaram como uma maré rompendo uma represa.
Incontáveis amanheceres e entardeceres onde suaram no rinque buscando a perfeição em cada movimento; o abraço apertado sob a chuva de fitas coloridas após o sucesso de uma apresentação; o momento sob o céu estrelado em que ele se ajoelhou para colocar o anel que guardara por anos; e as madrugadas abraçados no sofá, planejando o futuro de ambos.
"Ah!", a dor de cabeça intensa fez Vitor segurar a própria cabeça, enquanto lágrimas brotavam descontroladamente de seus olhos.
"Larissa...", ele murmurou o nome gravado em seu coração, enquanto todas as memórias despertavam completamente naquele momento.
Ele lembrou-se de tudo!.
Ele saiu tropeçando do quarto, procurando freneticamente pela silhueta que deveria estar ali.
Mas o apartamento estava vazio; não havia sinal de Larissa Queiroz.
Ele correu imediatamente para o teatro, mas o gerente lhe disse: "A Srta. Queiroz pediu uma licença longa, disse que precisava se afastar por um tempo".
Vitor estacou no lugar, olhando para o rinque de gelo vazio, compreendendo finalmente que não apenas perdera um mês de memória, mas perdera o amor de sua vida.
——————————
Larissa Queiroz voltou para o vilarejo no interior onde nascera.
As paredes brancas e telhas cinzas permaneciam as mesmas; ali, o tempo parecia passar devagar.
Ela era órfã e fora criada pela avó. Já idosa, a avó teimava em cuidar daquela velha casa, do quintal e de alguns pedaços de terra, recusando-se a partir.
Nos anos anteriores, não importava quão ocupada estivesse, Larissa sempre dava um jeito de voltar para passar um tempo.
Desta vez, ela planejava uma estadia longa.
Os dias seguiam tranquilos.
Ela ajudava a avó na horta e preparava refeições simples enquanto a fumaça subia das chaminés, sentindo-se como a garotinha que corria por aquele vilarejo anos atrás.
Até que, em uma tarde, uma silhueta familiar apareceu na entrada da viela.
Vitor chegara. Ele parecia exausto da viagem, e seu terno destoava completamente daquele vilarejo que parecia uma pintura em nanquim.
"Larissa!", ele exclamou ao vê-la, com os olhos brilhando enquanto avançava rapidamente.
No entanto, Larissa deu meia volta, entrou no quintal e bateu a porta de madeira com força.
"Vó, não abra a porta para ele", ela disse à idosa que secava vegetais no pátio.
A senhora olhou para a porta, depois para o perfil tenso da neta, e soltou um supiro baixo.
Vitor não partiu. Ele ficou parado diante daquela porta de madeira desgastada do meio-dia até o anoitecer.
O clima no interior mudava rápido, e à noite começou uma chuva fina.
Ele não procurou abrigo, permanecendo obstinado no lugar até que a chuva encharcasse suas roupas.
Larissa, deitada na cama ouvindo o som da chuva lá fora, também passou a noite em claro.
Perto do amanhecer, ela ouviu o movimento da avó se levantando. Pouco depois, a porta do quintal rangeu ao ser aberta.
"Vó!", ela desceu da cama às pressas.
A avó estava ajudando Vitor, encharcado e pálido, a entrar.
"Este rapaz ficou parado na chuva a noite toda e desmaiou na porta", disse a idosa com compaixão.
"Não importa o que aconteceu, não podemos negar socorro".
Vitor teve febre alta e ficou acamado por dois dias até se recuperar.
Após melhorar, ele simplesmente se recusou a ir embora. Ele começou a ajudar a avó nas tarefas domésticas de forma desajeitada.
No início, aquele homem acostumado aos rinques e palcos não sabia sequer segurar uma enxada, quase ferindo as mudas ao tentar tirar o mato.
Mas ele aprendeu rápido e, em poucos dias, já conseguia montar suportes para os tomateiros e carregar água para a horta com habilidade.
Larissa continuava a ignorá-lo completamente.
Ela não aceitava a toalha que ele oferecia.
Não comia os vegetais que ele ajudava a colher.
Ele apenas a seguia em silêncio, mantendo uma distância nem perto nem longe, como uma sombra.
Em uma tarde, meio mês depois, enquanto o pôr do sol tingia o céu de laranja, Vitor estava regando as begônias no quintal quando Larissa parou atrás dele e finalmente falou: "Precisamos conversar".
Ele assentiu vigorosamente, com o rosto mais vermelho que as flores.
Os dois caminharam até uma trilha entre os campos.
Os brotos de arroz balançavam suavemente com a brisa do entardecer diante das montanhas distantes.
"Eu sei o que você quer dizer", Larissa começou com a voz calma.
"Quer dizer que recuperou a memória e que sabe que errou".
Vitor deu um passo à frente ansioso:
"Larissa, me escute, não aconteceu nada entre mim e aquela mulher...".
"Eu na verdade não me importo com o que aconteceu entre você e ela naquele mês", ela o interrompeu.
"O que me importa é que você não acreditou em mim".
"Isso foi porque eu tive amnésia, não lembrava de nada", ele justificou com dor.
"Sim, você teve amnésia", ela repetiu suavemente, virando-se para olhá-lo nos olhos.
"Mas eu te expliquei que nos amávamos, que éramos namorados. Mesmo assim, você escolheu me dar as costas para protegê-la".
"Vitor, eu realmente te amo muito, mas toda vez que lembro daquele seu olhar frio naquele dia, meu coração dói demais".
"Eu não sei como te perdoar...".