Após desapegar-se completamente, Larissa Queiroz sentiu uma estranha onda de serenidade. Ela focou todas as suas energias na preparação para sua apresentação de despedida em São Paulo.
No dia do ensaio geral, Sérgio Viana apareceu de surpresa para apoiá-la, tendo descoberto o local por algum meio desconhecido. Ao final de uma coreografia, ele avançou como fizera centenas de vezes antes, carregando um buquê de rosas vermelhas vibrantes.
"Larissa, foi incrível! Nem consigo imaginar o quão impactante será a apresentação oficial."
Larissa o ignorou completamente, pegando a garrafa de água que sua assistente lhe estendeu. A mão dele, segurando as flores, travou no ar em um gesto desajeitado. Ele ia dizer algo, mas seu olhar foi capturado por algo distante e seu rosto empalideceu subitamente.
Seguindo a direção do olhar dele, Larissa viu a pequena gestante que ele vinha cuidando com tanto zelo. Sabrina agora usava roupas de trabalho e comandava os operários no ajuste dos adereços do palco.
Com um baque surdo, as rosas caíram no chão. Sérgio perdeu a compostura e correu em direção a ela.
Pela distância, Larissa não conseguia ouvir o que diziam, mas via nitidamente a irritação no rosto de Sérgio, sempre tão polido. Pouco depois, Sabrina saiu correndo, cobrindo o rosto enquanto chorava.
Sérgio fez menção de segui-la, mas ao notar Larissa ali perto, recuou bruscamente e tentou se explicar com pressa:
"Aquela mulher... Minha empresa já trabalhou com ela antes. O desempenho dela é péssimo. Fiquei com medo de que ela estragasse seu show e acabei dando uma bronca..."
Uma mentira patética. Larissa sorriu internamente, sem vontade de desmascará-lo, apenas assentindo com frieza.
Quando o ensaio terminou, ela quis tomar um ar e caminhou até o terraço externo. Para sua surpresa, deu de cara com os dois em uma discussão acalorada.
Sérgio estava visivelmente alterado: "Sabrina, eu não te disse para não trabalhar e focar no repouso? E se algo acontecer com o bebê?"
Sabrina ergueu o rosto com uma ponta de teimosia. "Eu estou grávida, não inválida! Preciso trabalhar, preciso me sustentar!"
"Você carrega um filho meu, é meu dever te sustentar!"
"E depois que o bebê nascer?" Os olhos de Sabrina ficaram marejados instantaneamente. "Você vai me sustentar pelo resto da vida?"
"Por que não!?" Sérgio deixou escapar.
Sabrina ficou estática, com os olhos perdidos. Sérgio percebeu o erro imediatamente, pigarreou e mudou o tom rápido:
"O que eu quis dizer é que, quando a criança nascer, eu e a Larissa cuidaremos dela. Quanto a você, eu jamais te deixaria desamparada. Vou te dar uma quantia generosa para que viva sem preocupações."
A luz nos olhos de Sabrina se apagou na hora. Ela baixou a cabeça e uma lágrima caiu silenciosa. "Entendi, Sr. Viana. Farei conforme o combinado: terei o bebê para você e sua esposa."
Ao ver aquele estado frágil dela, o coração de Sérgio amoleceu. Ele a puxou para um abraço e deu tapinhas em suas costas para acalmá-la:
"Não chore mais. Essas variações emocionais não fazem bem ao feto."
Eles pareciam tão íntimos e apaixonados, como um verdadeiro casal. Larissa não suportou ver mais nada e deu as costas. Ao voltar para o centro do salão vazio, sentiu as forças se esvaírem.
Naquele momento, ficou claro como cristal: Sérgio não apenas a traiu fisicamente; o coração dele também estava cada vez mais longe. Aquele homem que só tinha olhos para ela nunca mais voltaria.
Ela pressionou o peito, sentindo um vazio assustador. A dor dilacerante dos últimos dias agora dava lugar a um deserto oco, por onde o vento frio soprava livremente.
Em um transe, ouviu a voz suave de Sérgio acima dela, como se nada tivesse acontecido:
"Larissa, terminou? Vamos para casa? Preparei uma surpresa para você."
Ela não esperava que a tal surpresa fosse uma casa repleta de rosas e luz de velas. No tempo em que ela levou para tomar banho, ele já estava deitado quase nu na cama coberta de pétalas, com os músculos definidos sob a luz âmbar.
Ao vê-la sair, ele tirou a rosa que segurava entre os dentes e disse com a voz grave e sedutora: "Querida, senti tanto a sua falta."
Larissa observou o rosto bonito e o corpo atraente de Sérgio, mas sua primeira reação foi de puro asco. Antigamente, quando ela voltava do exterior, o reencontro era ardente, como se o mundo acabasse na cama. Agora, ao vê-lo assim, ela só conseguia visualizar as imagens dele com Sabrina em um envolvimento carnal.
Seu estômago revirou violentamente. Ela cobriu a boca e correu para o banheiro, vomitando de forma convulsiva. Sérgio foi atrás dela, preocupado: "Larissa, o que houve? É algo que você comeu?"
Quando a mão dele tocou seu ombro, a náusea piorou. Ela nunca imaginou que, um dia, sentiria tamanha repulsa por ele. Enquanto tentava pensar em como escapar daquela situação sufocante, o celular de Sérgio tocou.
Ao voltar da ligação, ele usou a mesma desculpa: "Tenho um problema na empresa e preciso ir até lá. Tem remédio no armário, não esqueça de tomar. Espere por mim."
Ele mal saiu e Larissa recebeu uma mensagem anônima:
[Venha ao Hotel XX, sala XX. Prepare-se para um belo espetáculo.]
Já que o palco estava montado, por que não ir? Ao chegar na porta da sala, Larissa percebeu que haviam deixado uma fresta aberta. Sérgio já estava lá dentro.
Com o rosto rígido, ele dizia em tom ameaçador: "Vocês ousaram forçar bebida em alguém que me pertence? Perderam o amor à vida?"
Sabrina estava escondida atrás dele, tremendo. Um homem de meia-idade, com aparência de executivo, curvava-se repetidamente, humilhado:
"Sr. Viana, mil perdões! Não sabíamos que a Srta. Mendes era sua protegida. Isso jamais se repetirá, por favor, tenha piedade..."
Sérgio bufou: "Acha que haverá uma próxima vez? Ela não trabalha mais aqui. Passar bem."
Dito isso, ele pegou a mão de Sabrina e saiu da sala com autoridade. Larissa se escondeu atrás de um carrinho de limpeza e ouviu Sérgio dizer a ela:
"Esqueça esse emprego medíocre. Se não quiser ficar parada, venha trabalhar na Viana Corp."
Sabrina assentiu baixinho e perguntou: "Se eu for para a sua empresa, o que faremos se sua esposa descobrir?"
Ao ouvir a palavra "esposa", uma expressão de impaciência cruzou o rosto de Sérgio. "Não fale dela, isso me irrita."
Eles se afastaram, e o restante da conversa Larissa ouviu pelo celular. O número desconhecido enviou um áudio gravado:
"Por que não posso falar da sua esposa? Vocês não têm um relacionamento ótimo?"
"Ela vive nessas turnês, passamos meses sem nos ver. Agora que voltou, só pensa nesse show solo dela, nunca para em casa."
Ouviu-se o som do alarme de um carro esportivo; eles haviam entrado no veículo. Sérgio soltou um longo suspiro: "A noite estava perfeita, mas ela disse que estava mal e não me deixou tocá-la. Estou subindo pelas paredes."
Após um longo silêncio, a voz cautelosa de Sabrina surgiu:
"Sérgio... você está muito mal? Se quiser... eu posso te ajudar."
"Não!" Sérgio recusou secamente, embora sua respiração tivesse ficado pesada. "Aquela noite foi um erro por causa da bebida, eu não vou trair a Larissa de novo."
"Só com as mãos... não conta como traição. Sérgio, você me ajudou tanto, eu só quero te retribuir..."
O que se seguiu foram sons de respiração ofegante e úmida. Cada ruído era como uma lâmina cortando os nervos de Larissa, causando uma dor insuportável.
Sérgio nunca foi o príncipe encantado dos contos de fadas; ele era apenas um homem inconstante. O corpo e o coração dele não pertenciam mais a ela.
Melhor assim. Larissa respirou fundo, tentando conter o soluço que subia pela garganta. De agora em diante, Sérgio poderia viver como quisesse. Ele não tinha mais nada a ver com ela.